Início de ano vigoroso nos palcos paulistanos

A temporada teatral de 2014 começou com estreias e reestreias importantes. Como ainda não havia retomado o Jogo de Cena, não tive oportunidade de escrever sobre algumas peças excelentes que passaram pela cidade e já saíram de cartaz. Por isso, destaco aqui, rapidamente, quatro espetáculos encantadores que preencheram os palcos paulistanos de vigor cênico:

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de "Conselho de Classe", da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de “Conselho de Classe”, da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Conselho de Classe

Na reunião de professores de uma escola pública carioca, conflitos internos e dissabores com o sistema educacional vêm à tona. O diretor substituto, recém-chegado, tenta apaziguar os ânimos, mas acaba intensificando ainda mais o debate. Com um ótimo texto do dramaturgo Jô Bilac, a Cia. dos Atores comemora seus 25 anos encenando com sensibilidade o cotidiano dramático dos profissionais que lidam com a educação no Brasil. Há humor, há seriedade e há pleno domínio da cena por parte do elenco afinadíssimo – Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux, em atuações excepcionais – e da direção de Bel Garcia e Susana Ribeiro. O espetáculo está merecidamente indicado ao Prêmio Shell 2013 (RJ) em três categorias: direção, texto e cenário). A decisão, perspicaz e original, de escalar apenas atores para interpretar, em maioria, papéis femininos funcionou muito bem. Dilemas pessoais, jogos de poder e as artimanhas pela sobrevivência (emocional, moral e até física) pontuam o encontro dos professores e traçam um retrato honesto, cômico e trágico, mas também amargo, do Brasil de hoje.

 * A peça esteve em cartaz no Sesc Belenzinho.

Com interpretações excelentes, "A Omissão da Família Coleman" é mais uma ótima peça dos argentinos do Timbre 4 (Foto: Divulgação).

Com interpretações excelentes, “A Omissão da Família Coleman” é mais uma ótima peça dos argentinos do Timbre 4 (Foto: Divulgação).

A Omissão da Família Coleman (Timbre 4)

Os argentinos da companhia Timbre 4, capitaneados pelo diretor e dramaturgo Claudio Tolcachir, trouxeram quatro peças de seu repertório em duas semanas de apresentações. Assisti a duas – A Omissão e O Vento no Violino. Em comum, um texto arguto, uma excepcional direção de atores e um aproveitamento inteligente do espaço cênico. A Omissão é minha preferida pela abordagem agridoce da dissolução de uma família de classe média baixa. A avó, que funciona como a figura de sustentação afetiva daquele núcleo, adoece. A mãe, infantilizada e dependente, não tem maturidade para lidar com a situação. Os quatro filhos –cada qual com suas questões internas – são chacoalhados pela realidade: precisam assumir suas escolhas e seguir seus rumos. Os laços entre eles, confusos e patéticos, não são suficientes para manter a convivência por mais tempo. É impressionante a desenvoltura dos atores (a interpretação é realista) e a fluidez da narrativa. Com Araceli Dvoskin, Inda Lavalle, Miriam Odorico, Lautaro Perotti, Tamara Kiper, Diego Faturos, Gonzalo Ruiz, Jorge Castaño.

* A peça também esteve cartaz no Sesc Belenzinho.

Nicholas Rawling manipula os desenhos para criar as projeções de "Odisseia", da The Paper Cinema (Foto: Divulgação).

Nicholas Rawling manipula os desenhos para criar as projeções de “Odisseia”, da The Paper Cinema (Foto: Divulgação).

Odisseia

Incrível – talvez o melhor adjetivo para definir o espetáculo da companhia inglesa The Paper Cinema que conta a Odisseia de Homero com recursos de animação, projeções e música executada ao vivo. As ilustrações usadas são feitas a mão livre – algumas em tempo real, por Nicholas Rawling, também diretor – e manipuladas pelo próprio Rawling e por Imogen Charleston. Christopher Reed, diretor musical, Katherine Mann e Hazel Mills são responsáveis pela belíssima trilha e “mixagem” sonora. Acompanhamos a busca de Telêmaco pelo rei Odisseu (Ulisses), seu pai, afastado há 20 anos de sua terra natal, e a tentativa do monarca de retornar à casa e aos braços de sua esposa Penélope. Ela, por sua vez, se vê obrigada a driblar a corte de inúmeros pretendentes que querem a coroa, o poder e as terras de Odisseu. Sem falas e quase sem legendas, a narrativa é conduzida bela e inteligentemente pelas projeções cinematográficas, pela música e pelos efeitos de som.

* Igualmente esteve em cartaz no Sesc Belenzinho.

Lady e Cotoco são os personagens desse belo espetáculo baseado nas máscaras dos bufões (Foto: Divulgação).

Lady e Cotoco são os personagens desse belo espetáculo baseado nas máscaras dos bufões (Foto: Divulgação).

Diário Baldio

Esio Magalhães e Gabriel Bodstein dão um show como os bufões desse delicado e pungente espetáculo que acompanha o encontro de dois seres marginais, esquecidos pela sociedade, que habitam os rincões de uma grande cidade e fazem daqueles nichos um mundo bastante particular, repleto de belezas invisíveis a olhos cansados. Lady tenta vencer seus dias solitários com bom humor e um otimismo artificial até a chegada de Cotoco, uma figura grotesca, que passa a lhe fazer companhia e lhe desperta sentimentos diversos. No fundo, trata-se de um ensaio sobre a difícil arte de ser humano e de lidar com a alteridade. O domínio técnico de Esio e Gabriel é impressionante. A trilha, de Marcelo Onofri e Ricardo Bottermaio, e a direção de arte de Antônio Apolinário também merecem aplausos. A direção é de Tiche Vianna, e Fernando Fubá faz uma participação especial.

* O espetáculo esteve em cartaz no CIT-Ecum.

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