A humanidade perdida

Reflexões a respeito das peças “Sobre o Conceito de Rosto no Filho de Deus” e “Gólgota Picnic” da 1ª MITsp

A imagem de Cristo, em reprodução gigante da pintura do italiano Antonello de Messina, paira serena e contemplativa diante da plateia e do palco e, a todo instante, desloca nosso olhar. Cena do espetáculo de Castellucci. (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

A imagem de Cristo, em reprodução gigante da pintura do italiano Antonello de Messina, paira serena e contemplativa diante da plateia e do palco e, a todo instante, desloca nosso olhar. Cena do espetáculo de Castellucci. (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

 

O termo “escatologia” tem dois significados dissonantes – pode referir-se tanto ao “tratado acerca dos excrementos”, no campo médico, quanto ao “estudo sobre o fim dos tempos” na Teologia e na Filosofia, debruçando-se sobre os estágios últimos do gênero humano e do mundo. Reconheçamos: somos feitos de matéria finita e, uma vez desprovido de vida, nosso corpo voltará a ser pó. Enquanto vivemos, nosso organismo se dedica mecanicamente a um fluxo contínuo de eliminação de resíduos desnecessários – urina, fezes e suor –, que só se interrompe com a morte. Ora, numa conclusão apressada e capciosa, poderíamos dizer que o destino humano é intrinsecamente escatológico: impossível negar os próprios excrementos, impossível driblar o fim da matéria.

Mas sabemos – sabemos? – que o gênero humano não se reduz a merda e pó. Afinal, pertencemos à espécie dos “sapiens”, seres humanos com consciência e racionalidade, não é? Temos afetos, estabelecemos relações. Validamos nossa existência porque pensamos (Descartes), porque somos percebidos (Berkeley), pela experiência da fé (Kierkegaard) e – na concepção mais em voga atualmente – porque consumimos (Benjamin, Agamben). Em sua trajetória evolutiva, a humanidade tomou conta do mundo literal e metaforicamente e, entre o espanto e o narcisismo, constatou que pode criar e destruir, destruir e criar, quase ad infinitum. Quase. O ser humano descobriu que o gran finale não lhe pertence. E que o “fim dos fins” parece mesmo irreversível, a despeito de todas as conquistas intelectuais, científicas e tecnológicas. Enquanto isso, a produção de bens e o consumo seguem a galope, assim como a eliminação de dejetos e excrementos individuais e coletivos. O show não pode parar.

Essas reflexões, um tanto desconjuntadas, me foram provocadas pelos espetáculos Sobre o Conceito de Rosto no Filho de Deus, do italiano Romeo Castellucci e a Societàs Rafaello Sanzio, e Gólgota Picnic, do hispano-argentino Rodrigo García e La Carnicería Teatro, ambos vistos durante a 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, evento idealizado por Antonio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, e Guilherme Marques, diretor-geral do Centro Internacional de Teatro Ecum (CIT-Ecum). As duas obras não me deixaram indiferente – num primeiro momento, soaram arrebatadoras (Sobre o Conceito, em especial) e demasiado incômodas (principalmente Gólgota). Agora, tendo recuperado a sobriedade analítica, já não as considero com tamanha paixão, mas continuo a achá-las potentes e provocadoras.

Cena de "Gólgota Picnic", espetáculo que questiona o esgotamento dos discursos religiosos e a opressão da sociedade de consumo. (Foto: Lígia Jardim/ MITsp)

Cena de “Gólgota Picnic”, espetáculo que questiona o esgotamento dos discursos religiosos e a opressão da sociedade de consumo. (Foto: Lígia Jardim/ MITsp)

 

Polifonia cênica
Os dois espetáculos são, de certa forma, escatológicos: escancaram a decrepitude física, moral e espiritual do indivíduo e a falência do ideal de humanidade, e usam o dejeto (fezes, vômito, fluidos…) como concretude e signo dentro da construção cênica. Em comum, igualmente apresentam uma combinação de linguagens artísticas (cinema, artes plásticas, música, performance), sem necessariamente hierarquizá-las, e se apoiam na polifonia dos elementos cênicos. Tudo significa, portanto – em diálogo, em confronto ou em deslocamento. Por isso, as cenas permitem várias leituras possíveis, embora as escolhas (ideológicas, estéticas) dos tarimbados encenadores se façam sempre notar.

Nas duas obras, a figura de Jesus Cristo é engrenagem fundamental para e na representação. Em Sobre o Conceito, a imensa reprodução da imagem de Cristo criada pelo pintor italiano Antonello de Messina (1430-1479) compõe o cenário. No primeiro ato, acompanhamos a aflição de um rapaz diante da diarreia intermitente de seu pai idoso e doente. A simples trajetória da sala até o quarto transforma-se em suplício. O velho se martiriza pela vergonha, o filho sofre diante da decadência do pai. Naquele calvário feito de merda (sintética; no dia em que vi a peça, não se sentia o odor, uma pena), a humanidade parece resistir. No segundo ato, crianças entram em cena e tiram de suas mochilas granadas de brinquedo, que jogam contra a imagem. Não há agressividade no gesto delas, mas provocação: “Ei, você, olhe para a gente”. A partitura sonora sugere a princípio um ambiente de recreio, que logo se transforma num palco de guerra. E, por fim, a transfiguração: sempre com uma composição sonora bastante expressiva, vemos a imagem se cobrir de merda, ser dilacerada e se desfazer. “O Senhor é meu Pastor.” E, em seguida: “O Senhor NÃO É o meu Pastor”.

As duas pontas da caminhada humana: a infância e a velhice, a possibilidade e o fracasso. Cena de "Sobre o Conceito de Rosto..." (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

As duas pontas da caminhada humana: a infância e a velhice, a possibilidade e o fracasso. Cena de “Sobre o Conceito de Rosto…” (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

 

O lado oculto do ícone
A serenidade daquela face de Cristo, desde o início, desloca constantemente nosso olhar. O Filho de Deus nos observa a todos – espectadores-testemunhas, pai e filho, crianças, agressores – com ternura. E nós o contemplamos, na expectativa de que, a qualquer momento, possa intervir na situação em curso: ajudar o velho doente, aplacar a angústia do filho amoroso, ralhar com as crianças, proteger-se dos rebeldes. Ele não intervém. Fragmentos bíblicos me vêm à mente. Pregado na cruz e extenuado pelos maus tratos, num dos momentos de maior agonia, Cristo grita: “Pai, pai, por que me abandonaste?” Não há resposta. Seu destino humano está selado. O mesmo Jesus, antes, em outro momento, havia dito: “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais, porque o Reino do Céus é para aqueles que lhes assemelham.” Afinal, como louva um dos salmos, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará.”

A peça é iconoclasta – como também é Gólgota Picnic –, mas não se trata de destruir ou banalizar o ícone religioso, mas sim de desvelá-lo para então revelá-lo de outro modo e devolver-lhe seu caráter primeiro, seu sentido original, hoje completamente deturpado por interesses duvidosos e camadas turvas de “interpretação” – muitas, aliás, criadas por fundamentalistas que fazem escândalo. Manifestações de desagravo por parte de religiosos contra as duas peças ocorreram em alguns países europeus. Muitos não devem ter visto os espetáculos e protestaram com base em relatos de terceiros. Para mim, o apego a uma imagem, em total esquecimento da figura que lhe deu origem e de sua mística, revela a tentativa de poder e controle de uns sobre as expectativas e a fé alheias. Sobre o Conceito, de certa maneira, igualmente questiona esse esvaziamento da transcendência em nome de soluções apaziguadoras e de fácil digestão.

Somos todos anjos caídos, mas ainda há espaço para o sublime. Cena de "Gólgota Picnic". (Foto: Lígia Jardim/ MITsp)

Somos todos anjos caídos, mas ainda há espaço para o sublime. Cena de “Gólgota Picnic”. (Foto: Lígia Jardim/ MITsp)

 

Anjos caídos
Gólgota Picnic, por sua vez, foi acusado de blasfemo. Mais verborrágico que o italiano, cenicamente mais “sujo” e certamente mais agressivo e mais direto em suas propostas, o irreverente espetáculo espanhol impressiona. Um grupo de artistas faz um piquenique no Gólgota, colina onde Cristo foi crucificado. Embora interajam, eles curiosamente não dialogam entre si; os interlocutores de seus discursos somos nós, os espectadores. Há uma dessacralização não só da figura de Jesus, de seu discurso e do calvário, mas da própria representação teatral. Os 25 mil pães de hambúrguer são 25 mil pães de hambúrguer, e não pedaços de espuma imitando a guloseima. A carne moída é realmente carne moída. O ator cospe de verdade o que está mastigando. As minhocas são minhocas – e estão vivas. A nudez é, de fato, nudez – e não símbolo de algo abstrato ou etéreo. As imagens captadas pela câmera usada em cena são reproduzidas no telão que compõe o cenário e se mesclam a trechos de vídeos mais “metafóricos”.

Somos todos anjos caídos, Cristos crucificados por nós mesmos à exaustão, por sermos humanos estamos condenados a um inferno perpétuo, dizem os atores. A salvação pregada por Jesus revela-se impossível. Deus provavelmente está aturdido diante de sua criação: não há castigo que devolva humanidade à humanidade, porque os indivíduos continuam sedentos de barbárie e fel. A estética brutal e “real” conduz à catarse – de novo, a escatologia: o ser humano, chafurdando na própria merda, acabou por desenhar o próprio fim. Mas eis que um piano é colocado no palco, em meio à sujeira e aos pães de hambúrguer amassados. Um rapaz, anteriormente vestido como funcionário do McDonald’s, se despe e executa com calma e precisão os nove movimentos da composição As Sete Últimas Palavras de Nosso Salvador na Cruz, do austríaco Joseph Haydn (1732-1809). Experimentamos, então, o sublime. Ao final, no telão, outra imagem da atriz saltando de paraquedas, como na abertura do espetáculo, acompanhada pelo ruído do vento. Há queda, mas há esperança.

O espetáculo espanhol faz uso do vídeo, com imagens captadas em tempo real e ângulos inusitados, numa estética bastante potente. (Foto: Lígia Jardim/ MITsp)

O espetáculo espanhol faz uso do vídeo, com imagens captadas em tempo real e ângulos inusitados, numa estética bastante potente. (Foto: Lígia Jardim/ MITsp)

 

Os inaudíveis ecos do divino
É inegável a potência cênica de Gólgota Picnic. Porém, achei que Rodrigo García e os atores do La Carnicería carregaram na ironia e no caráter doutrinador dos discursos. Em alguns momentos, a “pregação” parecia mais pregação mesmo do que crítica, sátira, sarcasmo; o texto soava rançoso. E a repetição insistente de certas passagens, como no caso dos três atores nus brincando com seus cabelos e pentelhos e alternando-se em posições provocativas, também contribuía para diminuir o impacto do que estava sendo mostrado.

Gólgota se pauta pela sujeira e pela saturação; Sobre o Conceito, pela assepsia. Na peça de Castellucci, tudo é espetacular e muito meticuloso; nem sempre consegui me conectar com o que acontecia no palco, já que a artificialidade às vezes me incomodava.

Não me parece à toa que sejam peças vindas respectivamente da Espanha e da Itália, dois países que ainda conservam uma forte influência e uma presença constante da Igreja católica na vida cotidiana. Mas a instituição, embora mantenha poder político e social, há muito perdeu a soberania no que tange à fé. Vivi em Barcelona por um ano e meio e já passei uma temporada longa na Itália para estudar o idioma local. Nos dois países, me surpreendi com a quantidade de pessoas que se declaram ateias e desiludidas com o Estado e com a religião. Ambas são nações capitalistas que, atualmente, enfrentam crises econômicas e questões sociais importantes. Por isso, são compreensíveis tanto a distopia retratada pelos espetáculos quanto a ácida crítica à mercantilização da fé, por meio da manipulação da imagem e do discurso de Cristo.

Na atualidade, sob o jugo de um sistema que aposta na competição e na exclusão, os ecos do divino se tornam cada vez mais inaudíveis e inacessíveis. Derrotado e impotente, o ser humano se esconde atrás da soberba e inventa mentiras para esquecer a própria pequenez. Tudo vai acabar em merda, sim, parecem dizer Castellucci e García. Mas a merda pode ser princípio de algo novo. A escolha é nossa.

O velho se martiriza pela vergonha, o filho sofre diante da decadência do pai. Mas a humanidade resiste em "Sobre o Conceito de Rosto..." (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

O velho se martiriza pela vergonha, o filho sofre diante da decadência do pai. Mas a humanidade resiste em “Sobre o Conceito de Rosto…” (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

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