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Teatro & Cinema: filme “Cru”, de Jimi Figueiredo

* Chico Sant’Anna, André Reis e Sérgio Sartório em cena do longa “Cru”, de Jimi Figueiredo.

Cru, do dramaturgo Alexandre Ribondi, é um texto de meias-palavras apenas na aparência; a cordialidade inicial dos personagens logo dá lugar a um comportamento hostil, moldado pela crueza de sentimentos e pela ausência de afetos. A violência está nos pequenos gestos, no olhar, nos pensamentos; latente, explode de modo inesperado e impreciso. Todos são punidos; afinal, a culpa se revela insuportável.

Levado aos palcos, o texto Cru ganhou uma montagem com alta voltagem de tensão. Numa cidade do interior de Goiás, o forasteiro Zé, com sua roupa engomada e pasta nas mãos, chega ao estabelecimento comandado pela travesti Frutinha, um misto de bar e açougue à beira de estrada, com cachaças baratas e pedaços de carne expostos. Está à espera de Cunha, um matador de aluguel. Quer encomendar um serviço. O pistoleiro, ao chegar, intimida o visitante com sua franqueza e seu sarcasmo. Os dois se estranham; Frutinha questiona as intenções de Zé. Pouco a pouco, certas revelações vêm à tona. O confronto se torna inevitável. Continue lendo

A vida como ela é

Nas últimas semanas, viajei a dois países pelos quais sou apaixonada (e nos quais já estive, por mais de uma vez, em longas jornadas repletas de aprendizados): México e Turquia. Mas não precisei enfrentar salas de embarque, pegar avião ou usar passaporte. Tanto no cinema quanto no teatro, tive a sorte de me deparar com duas obras que conseguiram captar, muito além da superfície, um flagrante tanto do estado das coisas quanto do estado de espírito de seus cidadãos, um recorte preciso e profundo dos temas que permeiam a atualidade dos dois países.

* Cena do longa existencialista "Era Uma Vez na Anatólia": onde a antiga e a nova Turquia se encontram.

Era Uma Vez na Anatólia (2011), do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, traz um uma pequena comitiva formada por policiais, militares, um promotor, um médico e os dois suspeitos de um crime em busca do corpo de um homem assassinado. Durante uma noite que parece eterna, em três carros, eles percorrem os campos da Anatólia, nas entranhas da Turquia, à procura do lugar exato em que o cadáver foi enterrado. A escuridão oculta os detalhes da paisagem, dificultando a tarefa. Além disso, um dos acusados alega que estava bêbado quando tudo aconteceu, por isso não tem certeza da localização do corpo.

A banalidade da trama é apenas aparente; seus pequenos desdobramentos são extremamente reveladores, e as breves interações entre os personagens se mostram significativas e permeadas por reflexões existenciais. Os cadáveres – metafóricos e reais – precisam ser enterrados com decência, só assim a história pode avançar. A cena da autópsia sintetiza o dilema que perpassa todo o filme: a Turquia ancestral, das tradições, superstições e povoados agrícolas, convive com a Turquia de traços e modos contemporâneos, que pleiteia um lugar de importância no mundo. Mas não sem fricção, e nem sempre com explicações lógicas. Belos planos, interpretações vigorosas. Do mesmo diretor, também gosto muito de Usak (2002). Continue lendo

Em primeira pessoa (2)

* "Continuei achando que você, Elena, estava dentro de mim. Era um estar em mim."

[Continuação do post anterior.]

Me vem à mente o belo filme Elena, de Petra Costa, com estreia marcada para 10 de maio. Petra realizou um longa-metragem biográfico, no qual busca reconstituir a trajetória da irmã Elena, que, aos 20 anos de idade, se suicidou. No fundo, Petra tenta contar a própria história, que só começará de fato quando a de Elena terminar – e como terminar a história de Elena se ela mesma a deixou incompleta? E como iniciar a própria, a dela, de Petra?

A cineasta era uma menina de 7 anos quando a irmã morreu. As duas viviam em Nova York com a mãe. Elena era atriz e havia se mudado para os Estados Unidos a fim de estudar interpretação para cinema. A primeira temporada que passara no exterior tinha começado cheia de expectativas e promessas que, ao longo dos meses, acabaram por não se cumprir. A frustração pelos sonhos irrealizados se somara a um estado depressivo. Elena, então, precisou voltar para casa. Passado um tempo, nova tentativa: retornaria a Nova York, mas não sozinha. Não adiantou. A existência se mostrou ainda mais insuportável, dolorida. Na carta de despedida, ela escreveu: “Me sinto escura, no escuro que nunca vai terminar”.

Petra se tornou atriz. Aos 17 anos, participou de um curso com o Teatro da Vertigem. Numa das aulas, recebeu a tarefa de criar algo com base no tema “livro da vida”. Revirou armários atrás de inspiração; encontrou um diário de Elena. “Ao folheá-lo, tive a estranha sensação de estar lendo minhas próprias palavras”, afirmou numa entrevista. “Foi uma identificação completa. Até então, minha relação com ela era de idealização. Nós nunca convivemos de igual para igual.”

Como, então, começar a escrever própria história? Petra responde no e com o filme: “Até que, no meu aniversário de 21 anos, minha mãe me olha e me diz: agora você está mais velha que Elena. O medo de que eu fosse seguir seus passos começou a se desfazer, mas continuei achando que você, Elena, estava dentro de mim. Era um estar em mim. Deixei de sentir isso ao começar a te buscar: você foi tomando forma, tomando corpo, renascendo um pouco para mim mas para morrer de novo”.

Elena, portanto, se volta para o sentido da existência. O sentido último que dá eixo a tudo, mas também o cotidiano, aquele das vitórias miúdas e rotineiras que fazem os dias valerem a pena, um após o outro. O filme fala sobre inícios e fins. Sobre perdas e conquistas. Sobre alteridade, esse outro que somos e que não somos. Petra conta sua história como Petra mas também como Elena. Uma história real, concreta, palpável, mas recriada pela ótica da subjetividade e do afeto. Uma história que se transforma em puro cinema, esteticamente bem-realizada, com uma narrativa fluida, imagens de arquivo, bela fotografia e ótima montagem. Petra não teve medo de mergulhar nas águas ora turvas, ora límpidas da memória, da própria identidade, de seus desejos, em suma, do viver.

A criação artística se alimenta do sangue do artista para depois alimentar o sangue de outro. Sem sangue correndo em suas entranhas, a obra fica gélida como um cadáver (que pode até despertar algum interesse, mas limitado). Não dialoga, não comove, não provoca. Esse sangue confere verdade. Petra assumiu isso sem temer os riscos, assim como os meninos de Ficção.

* Quem dança aqui? Elena, Petra ou ambas? (Em Nova York.)