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Início de ano vigoroso nos palcos paulistanos

A temporada teatral de 2014 começou com estreias e reestreias importantes. Como ainda não havia retomado o Jogo de Cena, não tive oportunidade de escrever sobre algumas peças excelentes que passaram pela cidade e já saíram de cartaz. Por isso, destaco aqui, rapidamente, quatro espetáculos encantadores que preencheram os palcos paulistanos de vigor cênico:

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de "Conselho de Classe", da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de “Conselho de Classe”, da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Conselho de Classe

Na reunião de professores de uma escola pública carioca, conflitos internos e dissabores com o sistema educacional vêm à tona. O diretor substituto, recém-chegado, tenta apaziguar os ânimos, mas acaba intensificando ainda mais o debate. Com um ótimo texto do dramaturgo Jô Bilac, a Cia. dos Atores comemora seus 25 anos encenando com sensibilidade o cotidiano dramático dos profissionais que lidam com a educação no Brasil. Há humor, há seriedade e há pleno domínio da cena por parte do elenco afinadíssimo – Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux, em atuações excepcionais – e da direção de Bel Garcia e Susana Ribeiro. O espetáculo está merecidamente indicado ao Prêmio Shell 2013 (RJ) em três categorias: direção, texto e cenário). A decisão, perspicaz e original, de escalar apenas atores para interpretar, em maioria, papéis femininos funcionou muito bem. Dilemas pessoais, jogos de poder e as artimanhas pela sobrevivência (emocional, moral e até física) pontuam o encontro dos professores e traçam um retrato honesto, cômico e trágico, mas também amargo, do Brasil de hoje.

 * A peça esteve em cartaz no Sesc Belenzinho. Continue lendo

Um quebra-cabeça e seus absurdos

Os jogos de lógica se sucedem em "Cachorros não Sabem Blefar", estimulante espetáculo dos mineiros da Cia. 5 Cabeças (Foto: Marco Aurélio Prates)

Os jogos de lógica se sucedem em “Cachorros não Sabem Blefar”, estimulante espetáculo dos mineiros da Cia. 5 Cabeças (Foto: Marco Aurélio Prates)

A peça Cachorros Não Sabem Blefar, da mineira Cia. 5 Cabeças, com dramaturgia e direção de Byron O’Neil, tem muitos pontos a seu favor. Em primeiro lugar, o atraente e instigante título. Impossível não ficar tentada a assistir; do que se trata, afinal? A seguir, o início. Enquanto o público se instala, os atores Ronaldo Janotti e Saulo Salomão já se encontram no palco – aparentemente imóveis, mas presentes em cena, com energia latente. O cenário joga com a concisão e o balanço entre literalidade e metáfora: um sofá, a mesinha com um telefone de discar e uma banheira (apenas com esses elementos, o espectador já poderia imaginar uma história, uma sequência de eventos). E, por fim, mas não menos importante, muito do êxito da montagem se deve ao elenco afiado. Os atores têm carisma e conferem credibilidade aos seus (disparatados?) personagens, interpretados com frescor.

Cachorros Não Sabem Blefar flerta com o teatro do absurdo e com o nonsense. Não há propriamente uma narrativa convencional, uma história linear – com começo, meio e fim – que caminhe para algum desfecho mais ou menos previsível. Embora exista uma lógica interna que norteia o texto, os riscos são grandes. Durante todo o tempo, a peça se equilibra num fio tênue, trabalhando com a ironia, com a argúcia e com o humor; brinca com as repetições, com o jogo de ideias e de palavras e com figuras tipificadas, mas de modo sutil. Pode ser que nem todos os espectadores acatem a proposta; neste caso, o espetáculo lhes parecerá demasiado cerebral ou caricato, ou ainda arrastado. A todo momento, a montagem dá a impressão de que periga desandar. Mas não desanda – e isso, além de ser seu trunfo, ainda nos faz cúmplices. Os méritos são da encenação, que transcende o texto e não se apega a ele. Continue lendo

Os atores Rafael di Lari, Greice Barros, Luiz Bertazzo e Ciliane Vendruscolo, da Cia. Senhas, em cena de “Circo Negro”. (Foto: Divulgação)

Realidade ou ficção?, eis a senha

“Respeitável público!” Um tubarão inflável e teleguiado sobrevoa nossas cabeças e nos dá as boas-vindas com seus movimentos circulares. No palco, quatro atores executam ações triviais (ou seriam quatro personagens que simulam ser atores e executam movimentos bastante calculados, reproduzindo ações triviais?). A trilha cria uma atmosfera de picardia – e, talvez, de picadeiro –, as luzes permanecem acesas por alguns momentos ainda, os atores/personagens aceleram o ritmo; ora, estimada plateia, o espetáculo já começou.

A curitibana Cia. Senhas de Teatro trouxe a São Paulo, durante o Festival Brasileiro do Teatro, sua leitura para o texto Circo Negro, do argentino Daniel Veronese, um dos nomes mais importantes da dramaturgia contemporânea latino-americana [recentemente, o Espanca!, grupo de Minas Gerais, montou O Líquido Tátil, outra obra de Veronese, com direção dele mesmo]. Há quem identifique, entre as escolhas recorrentes do argentino, a presença de um realismo não subserviente, um realismo contaminado pelo humor ácido, quase melancólico, e por um registro entre o sinistro e o grotesco, além do flerte com a metalinguagem. A encenação – como tema e como forma, engrenagem – está sempre em xeque, mesmo quando não é o foco principal da narrativa. É como se Veronese propusesse um teatro em constante embate interno, um teatro-fênix, que precisa ser dissolvido ou desconstruído para que, em seguida e de imediato, se refaça, carregado de frescor – e de fissuras (para ser de novo implodido). Continue lendo

Quando as palavras se tornam insuficientes

Tiago Rodrigues, Paula Diogo e Bernardo de Almeida em cena de "Se uma Janela se Abrisse", produção da companhia portuguesa Mundo Perfeito. (Foto: Magda Bizarro)

Tiago Rodrigues, Paula Diogo e Bernardo de Almeida em cena de “Se uma Janela se Abrisse”, produção da companhia portuguesa Mundo Perfeito. (Foto: Magda Bizarro)

Tiago Rodrigues, diretor artístico e ator da companhia portuguesa Mundo Perfeito, afirmou, em conversa com o público depois da última apresentação de Se uma Janela se Abrisse no Sesc Belenzinho (dia 4/8), que discorda da frase “uma imagem vale mais que mil palavras”, embora reconheça tanto o esvaziamento das palavras e dos discursos na atualidade quanto o poder das imagens – despejadas em fluxo contínuo – em captar e modular a atenção dos espectadores. Resolver tratar dessas questões no teatro e, para isso, escolheu o telejornal como objeto de desconstrução e releitura. Os noticiários televisivos possibilitam reflexões inúmeras; destaco algumas que aparecem na montagem: a experiência visual e o condicionamento ao que se vê, a manipulação das imagens, o tratamento jornalístico dado à realidade, a linguagem como mediadora entre os fatos e a compreensão desses mesmos fatos, a elaboração simbólica individual de um evento, as impossibilidades da fala para dar conta da vida etc. A própria elaboração teatral tem seu embate específico: atores versus projeção. O resultado é um espetáculo inteligente e provocador.

(Esse post continua a análise iniciada em As instigantes maravilhas do Mundo Perfeito.)
SE UMA JANELA SE ABRISSE
E começa o telejornal. Na projeção, vemos o âncora português João Adelino Faria dando início a mais um noticiário. Mas… opa? As tradicionais, pasteurizadas e insossas “novidades diárias” dão lugar à surpreendente informação de que a fala, subitamente, se tornou insuficiente diante da existência. Não consegue mais dar conta dos sentimentos, dos sentidos, da sensações. Da vida, em suma. Como? A primeira reportagem relata as repercussões do trágico acidente com o voo da Air France, que desapareceu no Oceano Atlântico. Um fenômeno acomete familiares e amigos das vítimas e gradativamente “contamina” os demais: as pessoas já não conseguem pronunciar certas palavras relacionadas à tragédia – “céu” e “mar”, por exemplo. Algo parecido ocorre com os habitantes da Ilha da Madeira, como consequência das chuvas torrenciais e das inundações que afetaram o lugar.

O mais curioso é que o telejornal, desde o início, é dublado pelos quatro atores que estão no palco – Tiago Rodrigues, Paula Diogo, Bernardo de Almeida e Cláudia Gaiolas – acompanhados pelo DJ e sonoplasta Alexandre Talhinhas. Dublado em perfeita sincronia, vale ressaltar. Vemos, nas projeções, o âncora, os repórteres e os entrevistados e os escutamos ao vivo, com perfeita naturalidade. Temos, portanto, uma dublagem ao vivo tratando da insuficiência da linguagem, da cisão entre significante (o aspecto palpável) e o significado (o aspecto conceitual) da palavra como signo. É preciso desdizer tudo para recuperar a essência da comunicação; do diálogo de um indivíduo consigo mesmo, de um indivíduo com outro indivíduo, com o mundo e com a coletividade. É preciso recriar o léxico. Um cartaz, erguido por uma bela moça, exibe a frase: “pago mil euros por um beijo”. Ninguém a beija. Estamos impotentes.

A fala viciada dos telejornais também se esgotou; é preciso que seja recriada por outrem. As notícias desimportantes sobre política, economia, meio ambiente, esportes, trânsito…, o toujours la même chose em que se tornou o noticiário televisivo (mostra tudo para dizer nada), esse recorte inútil da realidade (sobras requentadas de qualquer outro dia anterior), tudo isso dá lugar aos destaques que realmente importam: a humanidade da humanidade. São aquelas histórias mínimas – lembro, aqui, bem rapidamente do singelo filme do argentino Carlos Sorín, Histórias Mínimas (2002) –, aqueles relatos diminutos das pessoas comuns que ganham a tela e que emergem na dublagem. Se ainda nos restam o ópio e o vício da fala, que falemos do que realmente importa, ora pois.

Os atores no palco dublam o telejornal projetado em "Se uma Janela se Abrisse", espetáculo da cia. portuguesa Mundo Perfeito (Foto: reprodução)

Os atores no palco dublam o telejornal projetado em “Se uma Janela se Abrisse”, espetáculo da cia. portuguesa Mundo Perfeito (Foto: reprodução)

E, de repente, a dessincronia. Como se não bastasse a insuficiência do vocabulário disponível, a aridez da fala como instrumento de comunicação, os indivíduos começam a sentir que seus lábios se mexem em velocidade maior do que saem as frases. Ou seja, as frases começam a escassear, como conta uma outra reportagem do telejornal. Não há mais conexão entre o movimento labial e os dizeres. A própria dublagem sofre com isso. Tudo sai do lugar. E é então que o inevitável acontece: o âncora João Adelino Faria se cala. Cala-se porque não vale a pena dizer mais nada. Cala-se porque não cabe mais nas palavras. Longos, longuíssimos minutos de silêncio. Algo jamais visto na televisão: um âncora que simplesmente se cala. Mas seus pensamentos continuam vivos, audíveis e fluentes. E são esses pensamentos que escutamos por meio dos atores. No rosto de João, vemos todo um filme. Trata-se de um momento muito bonito (o jornalista concordou em ser filmado em sua bancada, em silêncio ativo, recebendo vez ou outra mensagens ou provocações de Tiago pelo ponto). O calar também é um modo de dizer algo. Ah, esse silêncio túrgido e fazedor de novos mundos…

Se uma Janela se Abrisse empresta seu título de um verso de Alberto Caeiro, que dizia o que Fernando Pessoa-ele mesmo talvez não ousasse afirmar, “há só uma janela fechada e todo o mundo lá fora,/ E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse/ Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”. Trata-se de um espetáculo com várias camadas de interpretação, rico em sentidos e reflexões. Em certo momento – o do comercial –, iogurtes são distribuídos para o público. Cada qual tem uma palavra associada – os atores anunciam a palavra e o espectador que quisesse aquele iogurte levantava o braço: “bonito”, “fashion”, “honesto”, “passional”, “inteligente”, “corrupto”, “20 centavos”, “infinito”… Eu peguei dois: “popular” e “complicado”. Por que esses dois? Que identificação tive com esses termos? Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia, meu bem. Eram meros iogurtes nominados ou significavam algo mais? Food for thought, literal e metaforicamente…

Meu agradecimento carinhoso e caloroso aos atores da Mundo Perfeito por esse espetáculo teatral tão estimulante, tanto sensorial quanto intelectualmente. Vida longa a essa companhia inquieta e cheia de picardia. E que voltem muitas outras vezes a São Paulo, ao Brasil. Beijos a todos – e nem precisam me pagar os mil euros.

Aos que não assistiram, dá para ter uma ideia do espetáculo nesse teaser:  http://www.youtube.com/watch?v=-jkF5_J-E-Q .

As instigantes maravilhas do Mundo Perfeito

Os navegantes da nau Mundo Maravilha: Tiago Rodrigues, Cláudia Gaiolas, Alex Cassal, Stella Rabello, Paula Diogo (em pé), Felipe Rocha e Renato Linhares. (Foto: Magda Bizarro)

Os navegantes da nau Mundo Maravilha: Tiago Rodrigues, Cláudia Gaiolas, Alex Cassal, Stella Rabello, Paula Diogo (em pé), Felipe Rocha e Renato Linhares. (Foto: Magda Bizarro)

Foi uma grata, gratíssima surpresa conhecer o trabalho da companhia portuguesa Mundo Perfeito, que aportou por essas bandas para participar da Ocupação Mirada, programa do Sesc São Paulo voltado ao intercâmbio com a produção teatral de países ibero-americanos. Tive a oportunidade de assistir a dois espetáculos: o delicioso Mundo Maravilha, realizado em parceria com o grupo brasileiro Foguete Maravilha, e o instigante e provocador Se uma Janela se Abrisse. Infelizmente, não pude ver Peça Romântica para Teatro Fechado, que igualmente integra a programação. O ator e diretor artístico Tiago Rodrigues e sua trupe ainda mostrarão mais uma peça: Três Dedos Abaixo do Joelho, de 9 a 11 de agosto. Registro aqui meu desejo de que a nau do Mundo Perfeito volte a visitar esse lado do Atlântico em breve e traga novas e antigas criações.

O mundo que a companhia desvela não é perfeito – nele há tormentas, naufrágios, caos, lapsos e descompassos. Mas trata-se de um mundo repleto de possibilidades, de novos continentes a desbravar, de silêncios que semeiam outras palavras e ideias, de sentimentos em constante recriação. Um mundo em processo contínuo, imperfeito, mas “perfeito” para se habitar justamente por suas imperfeições. Os artistas da trupe têm consciência disso e ousam experimentar. Existe o risco de que, vez ou outra, fiquem à deriva, com algum projeto que ainda não encontrou sua forma ideal, seu tempo de maturação; mas a recompensa pela ousadia é a construção de um modo de fazer teatro cheio de frescor e inteligência – como comprovaram as duas peças a que assisti.

Uma das inquietações que move a companhia, a meu ver, é um trabalho constante com a linguagem teatral e igualmente com a linguagem como (precário, fascinante) instrumento de comunicação. Quanto de nós cabe no idioma que falamos? Quanto da existência humana cabe no teatro? Tiago Rodrigues opta por uma construção conjunta da dramaturgia, na qual as referências do ator são de alguma maneira incorporadas ao que se narra. E deixa as engrenagens do espetáculo à vista, como se o espectador também participasse de seu “sentido final”. Aquilo que ocorre no palco não está fechado e só se completa porque nós lhe estamos assistindo – e qual público não se encanta com essa inclusão?

Criação conjunta entre a cia. portuguesa Mundo Perfeito e a brasileira Foguete Maravilha, "Mundo Maravilha" é um espetáculo sobre a tentativa de criar uma peça. (Foto: Magda Bizarro)

Criação conjunta entre a cia. portuguesa Mundo Perfeito e a brasileira Foguete Maravilha, “Mundo Maravilha” é um espetáculo sobre a tentativa de criar uma peça. (Foto: Magda Bizarro)

MUNDO MARAVILHA

Espetáculo de colaboração artística entre a Mundo Perfeito e a companhia carioca Foguete Maravilha, Mundo Maravilha narra a saga da tentativa de fazer uma peça. O processo criativo se iguala a uma viagem de veleiro em travessia pelo Oceano Atlântico. Durante o período no mar, os sete atores – Tiago, Paula, Cláudia, Alex, Felipe, Renato e Stella – pretendiam partilhar ideias, escrever e ensaiar cenas. Tal e qual o processo criativo, o veleiro muitas vezes parecia não sair do lugar ou perder o rumo; mas sempre alcançava algum ponto novo, ainda não explorado. A embarcação zarpou do cais, lançou-se ao mar, mas depois de algumas semanas, naufragou. “Morreram todos”, nos informam. O que significa essa morte simbólica dentro do processo criativo? E quem “morreu” – os atores, os personagens ou os personagens dos personagens?

Com base no que sobrou da experiência artística, os náufragos – ou seja, os que não morreram (quem não morreu durante o processo criativo, quem sobreviveu?) – tentam retomar aquilo que ficou a salvo: há desde objetos a sentimentos, registros de memórias, falas e diálogos, momentos, passagens de cena. E então, a segunda parte da peça (nova travessia, desta vez em terra firme e assumidamente metafórica?), se inicia com a reconstrução da aventura com base naqueles elementos (abstratos e concretos) que restaram ou que foram recuperados. Trata-se de um momento belíssimo, em que as sutilezas e as vivências de um processo colaborativo vêm à tona, e com tratamento cênico e olhar distanciado, revividos pelos personagens de seus atores, seus “eles-que-são-outros”. Há instantes de uma delicadeza incrível, como a história do japonês e sua orquídea rara – me perdoem a imprecisão, se houver, escrevo de memória –, a jornada do isqueiro vermelho, o monólogo de Tiago, o relato de Paula e a espécie de seresta-declaração de amizade que lhe fazem etc. Gosto igualmente da cena em que os navegantes se transformam em astronautas e se perdem pelo espaço: a delícia de percorrer o infinito, o acaso, a epifania da criação – o instante em que tudo se inicia, big bang!

>> Impasses e lampejos

Trata-se de uma peça sobre a oscilação entre a fé e a dúvida, o acerto e o erro, o impasse e os lampejos, oscilação esta que caracteriza uma criação conjunta. O que se deixa, o que se carrega. O que fica, o que precisa ir. Os afetos que emergem, aqueles que permanecem, os outros que se esvaem. As grandes sacadas, os pequeninos e doloridos acertos. Nada mítico – tudo muito humano, laborioso. O frescor se revela na linguagem, que passeia por registros de vários gêneros teatrais sem se ater a nenhum, e nos experimentos de construção cênica. O cenário se mostra adequado: pufes de cor clara espalhados pelo espaço e reorganizados conforme convém; potes de água, com lampadinhas, que escorregam do teto/céu; e, depois do naufrágio, os objetos que foram recuperados. Isso basta para que façamos todos, atores-personagens e espectadores, uma grande viagem juntos. Os coloridos figurinos, que incluem galochas, estão em harmonia com a proposta.

Nessa viagem marítima e artística, há também lugar para a jornada particular dos navegantes-atores, para as vivências de cada um deles, pois a dramaturgia coletiva tanto absorve quanto preserva a trajetória individual. Todos têm a oportunidade de nominar sua experiência criativa, de dar-lhe forma e encaixá-la numa metáfora condizente: podem ser a estátua de gelo em que se transformou Alex, o “momento Titanic” de Renato e Cláudia, a “expulsão” de Stella por ter rompido a fantasia e por aí vai.

Apenas 125 centímetros separam o público do palco: separam mesmo ou são interstício? Mundo Maravilha tenta ressignificar aquela pequena separação. Todos afundamos juntos – ninguém está imune ao equívoco, à ansiedade, à imaturidade, à profusão caótica de vontades e ao empecilho das limitações. Mas somos engolidos pelo oceano de possibilidades; morremos em certo sentido para reviver em outro nesse eterno aprendizado do existir. Criar não é justamente isso: um morrer para o renascer, como náufragos que chegam à ilha desconhecida, como astronautas que caem em novos planetas?

Aliás, o espetáculo me recordou duas obras queridas do escritor José Saramago: Jangada de Pedra (1986), quando a Península Ibérica se desgruda da Europa e navega à deriva pelo Atlântico, e O Conto da Ilha Desconhecida (1998), sobre a jornada simbólica de cada ser humano pelos mares de dentro e de fora de si mesmo. A peça e as obras evocam um sentimento muito típico dos portugueses que nós, brasileiros, herdamos: a necessidade intrínseca de nos lançarmos ao mar.

Co-criação e interpretação: Alex Cassal, Cláudia Gaiolas, Felipe Rocha, Paula Diogo, Renato Linhares, Stella Rabello e Tiago Rodrigues. Texto de Alex Cassal, Felipe Rocha e Tiago Rodrigues.

(No próximo post, comentários sobre Se uma Janela se Abrisse.)

Estamos ou não estamos à venda?

Ernani Sanchez, Luís Mármora e Pedro Felício em "Quanto Custa?", montagem com dois textos inéditos de Bertold Brecht. (Foto: Ding Musa)

Ernani Sanchez, Luís Mármora e Pedro Felício em “Quanto Custa?”, montagem com dois textos inéditos de Bertold Brecht. (Foto: Ding Musa)

“Não citarás o nome de Bertold Brecht em vão”: este deveria ser um mandamento respeitadíssimo entre todos aqueles que trabalham com as artes cênicas. O grande encenador e dramaturgo alemão (1898-1956) se tornou desculpa ou justificativa para peças, textos e procedimentos que não têm nada a ver com ele. Assim como a figura de Che Guevara, assimilada pela sociedade de consumo e regurgitada sob a forma de ícone pop, esvaziado de ideologias, para uso imediato em camisetas e adesivos, Brecht tem se tornado uma espécie de manto protetor, invocado a torto e a direito para blindar encenações equivocadas ou incoerentes. De uns tempos para cá, na areia movediça do universo pós-dramático e numa sociedade cada vez mais voltada para a pasteurização das propostas e para o mercado (que faz do espectador cliente e confunde cultura com entretenimento), muitos justificam suas escolhas atribuindo-as ao “distanciamento brechtiano”, ao “épico brechtiano” ou à “dialética brechtiana”. Em muitos casos, porém, o que menos se vê é a essência de Brecht ou um verdadeiro espírito brechtiano a orientar a montagem, tanto em conteúdo quanto em forma.

Desabafos à parte, um legítimo texto de Bertold Brecht é sempre bem-vindo. No caso da peça Quanto Custa?, dirigida por Pedro Granato e que felizmente não se encaixa nas descrições do parágrafo acima, trata-se da combinação de dois textos curtos do dramaturgo alemão, escritos em 1939: Quanto Custa seu Ferro? e Dansen. Ambos foram criados no calor do avanço nazista e do início da Segunda Guerra Mundial, enquanto Brecht estava exilado na Dinamarca e na Suécia, e são bastante similares. No primeiro deles, o vendedor de ferro Svenson se mantém alheio ao gradativo desaparecimento de seus vizinhos; evita assumir qualquer posição a fim de manter o patamar de suas vendas e preservar seus clientes, especialmente um misterioso e assíduo comprador. No segundo texto, o criador de porcos e açougueiro Dansen afirma sua crença nos contratos como mantenedores da atmosfera pacífica entre os vizinhos. Ele divide a rua com outros dois comerciantes, além de seu amigo ferreiro Svenson. Quando um estranho, que passa a circular pelas redondezas, lhe propõe um contrato, Dansen logo aceita a fim de sentir-se protegido – até ver seus vizinhos serem mortos e os negócios deles tomados pelo misterioso homem.

Na peça dirigida por Granato, três comerciantes convivem harmoniosamente: Dansen, Svenson e a senhora Norsen, uma jornaleira. Por lá passa também Austin, o vendedor de tabacos. Um estranho começa a rondar os estabelecimentos, propondo contratos “de proteção” e, para a alegria de Svenson, torna-se um comprador das barras de ferro. Ocorre o primeiro assassinato. Um clima de insegurança toma a rua – e mais barras de ferro são vendidas: para os amedrontados comerciantes e igualmente para o forasteiro. Em seguida, outro assassinato. Desconfianças vêm à tona; tanto Dansen quanto Svenson se sentem em perigo. Mas o primeiro decide assinar o contrato com o estranho, crente de que assim não será atacado; o segundo hesita em tomar alguma atitude, uma vez que o tal homem misterioso lhe alimenta a caixa registradora, adquirindo barras de ferro com uma frequência cada vez maior.

>> Uma certa relutância

Antes de enveredar pelas várias reflexões que a peça desperta, queria fazer alguns comentários específicos sobre a montagem. Ao final, fiquei com a sensação de que faltou algo – uma certa densidade, talvez? Aqui não me refiro à necessidade de “psicologismo” para os personagens, nada disso. Os atores, aliás, estão muito bem: Luís Mármora como o açougueiro; Ernani Sanchez no papel do ferreiro e Pedro Felício desdobrando-se em Austin, a senhora Norsen e o homem misterioso. A narração em off e a trilha sonora ressaltam o aspecto fabular, e isso igualmente funciona bem. Gosto dos figurinos e da luz, contudo o cenário – bem-feito, por sinal – não me convenceu. Nem as marcações dos atores no palco. Entendo que a caracterização do ambiente era necessária e que a rubrica de Brecht menciona a proximidade entre os vizinhos, no entanto os figurinos e certos objetos cênicos já falam por eles mesmos: o porco, as barras de ferro, os jornais, as cartas, a maleta do forasteiro… Por que não dar mais valor à relação ator-objeto? Senti que os intérpretes ficaram muito presos a seus “espaços”, que, embora bem desenhados, pouco acrescentaram à trama. Também achei que a aparente mistura de gêneros e a tentativa de usar referências cinematográficas ficaram no meio do caminho. A peça não é tão séria nem tão cômica quanto poderia ser, nem tão tensa, nem tão surreal nem tão política… Daí minha impressão de “meio do caminho”. Paira uma certa relutância sobre a montagem. Pode ser que o estranhamento seja mesmo proposital; uma pena que isso tenha me incomodado.

Há também uma questão com o tempo. O espetáculo tem ritmo; porém, às vezes, a transição de uma cena para outra me pareceu demasiado apressada, como se faltasse uma curva mais bem desenhada de silêncio ou de suspensão antes de passar adiante. Isso deu uma impressão de linearidade, previsibilidade. Sei que Brecht joga com essa ideia no texto, mas igualmente faz parte do jogo da encenação usar nossas expectativas a favor da história que se conta. O espectador pode até sacar o que vai acontecer, mas espera ser surpreendido no como acontecerá. É possível que isso seja aperfeiçoado ao longo da temporada, conforme os atores forem se apropriando de seus personagens. Tomara.

O açougueiro, a jornaleira e o ferreiro: personagens de "Quanto Custa?", textos de Bertold Brecht com direção de Pedro Granato. (Foto: Ding Musa)

O açougueiro, a jornaleira e o ferreiro: personagens de “Quanto Custa?”, textos de Bertold Brecht com direção de Pedro Granato. (Foto: Ding Musa)

>> Indignação tem preço?

Apesar dos meus apontamentos, recomendo a peça – pelos atores e pela pertinência de seus temas. Durante todo o espetáculo, me lembrei do célebre poema do carioca Eduardo Alves da Costa (1936), que já foi equivocadamente atribuído a Brecht, No Caminho com Maiakóvski. Diz um trecho: “Na primeira noite, eles se aproximam/
e roubam uma flor
do nosso jardim./
E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem;/
pisam as flores,/
matam nosso cão,/ e não dizemos nada./
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,/
arranca-nos a voz da garganta./
E já não podemos dizer nada”.

Atribui-se ao pastor protestante Martin Niemöller (Alemanha, 1892–1984) uma pregação, feita na época do avanço nazista, que também vai mais ou menos pela mesma linha do poema de Alves da Costa. Eis uma das versões: “Quando os nazistas prenderam os comunistas, fiquei em silêncio; eu não era um comunista. Quando detiveram os social democratas, permaneci em silêncio; eu não era um social democrata. Quando foram atrás dos sindicatos, nada falei; eu não era sindicalista. Quando perseguiram os judeus, fiquei em silêncio; eu não era judeu. Quando vieram me buscar, não havia mais ninguém para protestar”.

Qualquer semelhança com nossa realidade atual não é mera coincidência – e aí está um dos méritos de Quanto Custa?: a pertinência do debate que a peça traz à tona. E com a peculiaridade de tocar justamente nos cernes capitalistas, tão caros à nossa sociedade contemporânea: o lucro, os contratos, o indivíduo transformado em mero consumidor/cliente, o individualismo do ‘salve-se quem puder’. Quanto custa nossa dignidade? Quanto custa nossa solidariedade? Qual o preço de nossa indignação, de nossa coragem? Estamos à venda?

A cadência dos acontecimentos narrados por Brecht – e não nos esqueçamos que ele era marxista – se assemelha ao poema e à pregação citadas acima: o vizinho foi assassinado e eu continuei vendendo meu produto – “sabe como é, a situação financeira, preciso garantir minha sobrevivência e…”; a vizinha também foi assassinada e eu, de novo, só me preocupei em vender meu produto – “não devo tomar partido ou assumir minha posição, posso perder clientes…”; mais um assassinato, desta vez bem próximo, e não sei o que fazer – “essa atmosfera de insegurança é abominável! melhor assinar um contrato de proteção individual e garantir minha vida e minhas vendas”; até que o assassino bate à minha porta – “socorro! por que ninguém me ouve?”.

Ser conivente é, sim, assumir uma posição favorável a um sistema opressor. Colocar-se à venda é, sim, um ato político e também totalmente favorável a um sistema opressor. A omissão compactua com a opressão. Quanto Custa? nos lembra disso a todo momento.

Até 4/10, qua. a sex. 20h (não haverá apresentação nos dias 18 e 25/9). Gênero: Suspense. Duração: 60 min. Classificação: 12 anos. Centro Cultural Banco do Brasil: R. Álvares Penteado, 112, Metrôs Sé e São Bento, tel. 3113-3651/ 3113-3652. Penteado, 112, Metrô Sé, tel. 3113-3651. Ingressos: R$ 6. Crédito: Mastercard e Visa. Débito: idem. Onde comprar: na bilheteria do CCBB (qua. a seg. 9h/21h), ou, com taxa, pelo site ingressorapido.com.br. Estacionamento conveniado: R. da Consolação, 228 (Edifício Zarvos) – R$ 15,00 pelo período de até cinco horas, com transporte de van grátis entrada do CCBB.

Teatro, essa arte movediça

*Os atores Marcelo Castro, Grace Passô e Gustavo Bones, do Espanca!, encenam texto do argentino Daniel Veronese (crédito: Guto Muniz/ Foco in Cena).

“Coração mistura amores. Tudo cabe”, escreveu Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Ah, e como cabe. Concordo com Rosa, e concordo sempre um pouquinho mais por experimentar essa mistura no cotidiano, à moda de Antoine Doinel (o célebre personagem do cineasta francês François Truffaut). Em meu coração cabe o fascínio pelo teatro e pelo cinema em igual intensidade, mas cada qual produz um encantamento diferente. Sou apaixonada por ambos, tanto no fazer quanto no assistir. Se me obrigassem a escolher entre os dois, talvez eu saísse pela tangente e elegesse a literatura como fim último do meu amor. Mas essa é outra história…

Ri muito durante O Líquido Tátil, com os mineiros do Espanca! e texto do argentino Daniel Veronese. Com seu humor ácido e inteligente, atuações precisas e ótimas sacadas, a peça me divertiu bastante. Os três atores também parecem se divertir em cena – e isso é fator fundamental para criar empatia com o público (às vezes, lamento uma histeria desnecessária que permeia certas montagens, como se os intérpretes precisassem esganiçar para contar sua história; felizmente, não é o caso desta). Simplicidade, sagacidade e competência se unem nesse espetáculo enxuto e repleto de entrelinhas, no qual os personagens questionam a primazia do cinema sobre o teatro e vice-versa.

Traumas & pulsões

A atriz Nina (Grace Passô), outrora uma estrela dos palcos, tem uma relação cheia de arestas e lacunas com o marido Peter (Marcelo Castro), tipo meio bronco e antiquado, ferrenho defensor do teatro. O casal recebe a visita do irmão de Peter, Michael (Gustavo Bones), rapaz um tanto debochado e menos conservador, fã ardoroso da Sétima Arte.  Ele traz um cãozinho de pelúcia para Nina e um xarope para o irmão sisudo, ex-fumante pouco convicto. Com cortes abruptos na narrativa, a peça envereda pelo teatro do absurdo e lida com o lado B daqueles personagens recalcados, seus traumas e pulsões.

O cenário, claustrofóbico e com um quê de precário, expõe propositalmente as fragilidades do fazer teatral. Os personagens jogam com o público durante o tempo todo; sabemos que se trata de uma encenação – e supostamente Nina, Peter e Michael também o sabem. Mas não só isso: eles nos fazem acreditar que há uma segunda encenação em curso dentro daquela encenação original. E se os personagens formos nós?, cheguei a pensar em dado momento. O engenho do texto de Veronese é tal que provoca uma sensação labiríntica (isso me lembrou vagamente seu conterrâneo Júlio Cortázar). O argentino também assina a direção – e seu apuro estético vale ser destacado. A peça tem ritmo, silêncio e tensão em exata medida, elementos bem trabalhados pelos excelentes intérpretes.

O teatro se esgotou?

Um amigo meu, fã incondicional de literatura e cinéfilo incurável, me disse certa vez que o teatro já não lhe despertava nenhuma curiosidade. Para ele, a linguagem teatral se encontrava esgotada e superada diante da maturidade do cinema. Perdera o interesse no que acontecia nos palcos havia anos; os recursos cênicos não lhe instigavam, pareciam agora instrumentos toscos ou meros pastiches diante da estética cinematográfica. Embora eu discorde da essência de sua crítica, reconheço a pertinência de seu questionamento. O que mantém o teatro vivo, aceso, hoje em dia? (Esse tema renderá ainda muitos outros posts, aguardem).

Numa entrevista dada ao periódico argentino Clarín, em 2008, quando indagado se faria cinema, Veronese respondeu: “La verdad, le tengo un poco de miedo al artificio cinematográfico, toda esa técnica al servicio de un producto que no se puede mover, salvo en la edición, tan distinto al teatro”. E continuou: “Pero es un desafío y creo que si me pongo, no saldría del cine con facilidad, siento que me atraparía. El problema es que estoy excedido en mi trabajo, me seduce lo que hago y no sé parar.”

De fato, o fazer teatral parece areia movediça ou duna, que se move o tempo todo. Um líquido tátil. O jogo-ritual que caracteriza uma encenação está repleto de riscos, sempre sujeito a tudo – a falhas, a interrupções, a esquecimentos, a ruídos, as espirros e a sussurros, mas também a grandes acertos, a momentos de transcendência e epifania. Cada apresentação é única e “irrepetível” – e essa linha tênue entre o fugaz e o memorável, ao menos para mim, é extremamente sedutora.

O Líquido Tátil, ao escancarar a precariedade do teatro de modo explícito, revela muito de sua força. Povoa nossa mente de imagens e dialoga com nossas emoções apostando nos recursos mais simples e mais essenciais: um texto vivo, atores afinados, direção consciente e um cenário sugestivo. Ora, ora, camarada – o resto é com a gente.

* O absurdo permeia "O Líquido Tátil", uma peça que expõe a fragilidade e também a força do teatro (crédito: Guto Muniz/ Foco in Cena).

Até 28/4, sex. e sáb. 21h, dom. e fer. 19h. Sesc Pompeia: R. Clélia, Gênero: Drama. Duração: 50 min. Classificação: 14 anos. Ingressos:  R$ 4 (trabalhador no comércio ou em serviço matriculado) a R$ 16. Crédito: D/M/V. Débito: C/M/R/V. Onde comprar: na bilheteria (ter. a sáb. 9/21h, dom. e fer. 9/19h) e nas demais unidades do Sesc.