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Peripécias na mansão de cômodos infinitos

Sentados, dona Bluma e Sua Excelência; em pé, um dos fantasmas do casarão e a interesseira Filipa: personagens divertidos de "Operação Trem-Bala". (Foto: Paulo Cesar Lima)

Sentados, dona Bluma e Sua Excelência; em pé, um dos fantasmas do casarão e a interesseira Filipa: personagens divertidos de “Operação Trem-Bala”. (Foto: Paulo Cesar Lima)

Antes de comentar minhas impressões sobre o novo espetáculo do veterano Naum Alves de Souza, breves considerações. Os leitores que acompanham este blog (desde o endereço antigo) já devem ter percebido algumas de minhas convicções em relação ao teatro e também várias predileções. Acredito que uma peça bem-sucedida – e aqui obviamente não me refiro à arrecadação de bilheteria – se faça com bom texto, boas interpretações e uma direção que permita o jogo cênico entre os atores e entre eles e a plateia. Costumo dizer que espetáculos que me mantêm passiva diante do que ocorre no palco, já que dão tudo pronto, explicadinho, com uma história hermeticamente fechada e sem espaço para minha imaginação, não precisam de mim – nem de qualquer outro espectador. Seriam espetáculos feitos para o espelho?

O cenário (ou a ausência dele) tem papel fundamental na montagem. Como bem sabemos, o teatro se apoia em signos linguísticos e não-linguísticos, que não se apresentam em modo puro; estão sempre em inter-relação. Aqui faço remissão à teoria do semiólogo polonês-lituano Tadeusz Kowzan: as palavras, a entonação, a expressão facial, os gestos, o deslocamento do ator/ a marcação, a trilha sonora, os ruídos, os objetos, a maquiagem, o figurino, os pentedaos, a luz e o cenário compõem o dinâmico sistema de significação de um espetáculo teatral. Oferecem, nas palavras do escritor e semiólogo francês Roland Barthes, uma “polifonia informacional”.

O cenário tem a função de representar e/ou indicar o espaço e o tempo da ação. Pode remeter a um lugar geográfico específico ou um certo tipo de ambiente, por exemplo. Evoca uma época histórica, um momento do dia ou fases da vida de um mesmo personagem. Enfim, as possibilidades são inúmeras, e as escolhas do cenógrafo passam por fatores objetivos e subjetivos. O cenário e o uso do espaço cênico revelam muito sobre as pretensões e as propostas de uma montagem. A mim, não cabe elucubrar o porquê das opções feitas, mas tentar compreender a mensagem que tais opções passam, sempre com a ressalva de que me incomodo deveras com a literalidade excessiva. Cenários demasiado literais sempre me dão a impressão – até que se prove o contrário – de que ou há uma intenção clara de condicionar a leitura do espectador (“entenda deste modo”), ou que algo ali no jogo cênico está sendo subestimado (o público, o texto, os atores, o próprio jogo etc.).

OPERAÇÃO TREM-BALA
O prolífico Naum Alves de Souza comemora 70 anos de idade e 40 de carreira assinando o texto e a direção desse espetáculo. Sua Excelência (Marco Antônio Pâmio), um velho governante corrupto há décadas no poder, acredita que seu projeto mirabolante de um trem-bala que liga São Paulo ao Rio de Janeiro finalmente saiu do papel. As três filhas do casamento com dona Bluma (Ana Andreatta), sua primeira esposa, e Filipa (Mila Ribeiro), a ambiciosa segunda mulher, fazem-no acreditar que a viagem inaugural do tal trem-bala acontecerá em breve. No fundo, o que elas pretendem é despachar o patriarca para bem longe e dividirem entre si os bens da herança.

Sua Excelência ainda vive na mansão de infinitos cômodos com dona Bluma (o político não esperou ela morrer para se casar de novo, com uma mulher mais jovem e voluptuosa, cumprindo o manjado script machista do ricaço viúvo), o também centenário dom Círio (Fábio Espósito), confessor da família, os velhíssimos tios e a governanta Elpídia, que trabalha ali desde o tempo do tataravô de Sua Excelência. De modo bem-humorado e exagerado, Naum Alves de Souza usa esses personagens à la Matusalém para falar da velhice e do lugar dos idosos na sociedade atual. Mas não há panfletarismo nem condescendência; o fato de Sua Excelência ser um corrupto assumido, orgulhoso de suas tramoias e conquistas (qualquer semelhança com certas figuras, que parecem fazer parte do cenário político brasileiro desde o tempo das capitanias hereditárias, não é mera coincidência), afasta qualquer pieguice. Ninguém ali se tornou santo por causa da idade.

Os quatro ótimos atores desempenham vários papéis – e dão conta de todos os personagens com competência. Alguns momentos da encenação, contudo, me pareceram apelativos ou arrastados. Os figurinos se encaixam de modo adequado à narrativa, inclusive certos adereços (as perucas, os óculos escuros ou de grau, o boné etc.).  Mas o grande acerto, na minha opinião, foi a simplicidade do espaço cênico: a maquete com os trilhos de um trenzinho, ora em movimento, ora parado; cadeiras de rodas para Sua Excelência, dona Bluma e/ou dom Círio e andadores. Com isso, tanto a luz quanto o desenho sonoro (trilha, rubricas ditas em off, ruídos) ganharam em importância e compuseram um cenário – no sentido amplo do termo – fantástico. Conseguíamos imaginar cada um dos infinitos cômodos daquela mansão caquética; víamos as lagartixas na parede, as saúvas do jardim, as roseiras ressecadas, o quarto mal-assombrado, as cadeiras de plástico substituindo os móveis da sala de jantar, as cabeças de animal empalhadas que ainda sobram – porque tanto Filipa quanto as três filhas de Sua Excelência estão roubando o que há de valor na imensa casa a fim de aumentarem o próprio caixa.

É claro que um cenário mínimo aumenta a responsabilidade dos atores e lança o foco para a potência da interpretação (o gesto, a entonação, o deslocamento em cena, a interação entre os personagens…), reforçada pelos figurinos, pela iluminação e pelo som. Despida de apetrechos desnecessários, a encenação se apóia assim na essência, na força do jogo teatral. O texto emerge límpido. Obviamente o risco é grande, mas, quando a peça é bem-sucedida, vale a pena.

Dom Círio (Fábio Espósito), um dos matusaléns da peça "Operação Trem-Bala", de Naum Alves de Souza. (Foto: Paulo Cesar Lima)

Dom Círio (Fábio Espósito), um dos matusaléns da peça “Operação Trem-Bala”, de Naum Alves de Souza. (Foto: Paulo Cesar Lima)

Até 29/9, sex. e sáb. 20h; dom. 19h. Instituto Cultural Capobianco: Rua Álvaro de Carvalho, 97, Metrô Anhangabaú, tel. 3255-8065 e 3237-1187. Gênero: comédia. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Ingressos: R$ 20. Crédito e débito: não aceita. Onde comprar: na bilheteria, que abre duas horas antes.