Arquivo da categoria: Digressões fernandianas

A arte abraça a Cracolândia

Na tenda do Programa Braços Abertos, Edson apresenta seu rap aos companheiros, ao senador Eduardo Suplicy e aos artistas do projeto Luz Solar. (Foto: Priscila Machado)

Na tenda do Programa Braços Abertos, Edson apresenta seu rap aos companheiros, ao senador Eduardo Suplicy e aos artistas do projeto Luz Solar. (Foto: Priscila Machado)

Notas sobre o Programa Luz Solar

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão/ todo artista tem de ir aonde o povo está.”
(Bailes da Vida, Fernando Brant e Milton Nascimento)

Retornei ao Brasil no fim de fevereiro de 2012. Melhor seria dizer: retornei a São Paulo. Porque, desde 2008, quando saí em viagem pelo mundo por mais de nove meses ininterruptos, eu não voltava a São Paulo, ainda que nos anos seguintes houvesse pisado no chão dessa cidade nos intervalos de minhas andanças pelo país ou por terra estrangeira. Nesses períodos, porém, me sentia sempre de passagem pela megalópole; estava sem estar, sem me conectar com a realidade ao meu redor. Depois de ter vivido um ano e meio em Barcelona, aterrissei de fato em São Paulo, consciente de que era momento de reaprender a viver nessa cidade tão bruta quanto prolixa e restabelecer relações, caminhos e diálogos.

Poucos meses depois, comecei a trabalhar para a (agora extinta) revista Época São Paulo e uma de minhas primeiras resenhas foi para a peça Borboleta Azul, da Cia. Pessoal do Faroeste. Conversei longamente com o diretor Paulo Faria, por telefone, e fui assistir ao espetáculo na estreia, num dia de semana à noite. Era a primeira vez que ia à sede da companhia. Na saída do metrô, optei por seguir por toda a Rua do Triunfo. No caminho, cruzei com vários usuários de crack; alguns agitados, outros mais alheios, mas não fui importunada. Talvez nem tenham me notado, porém eu os notei; foi meu primeiro contato concreto com a Cracolândia.

Fui a outros ensaios e eventos na sede da cia. Pessoal do Faroeste. Acompanhei a batalha de Paulo Faria pela inauguração da Ocupação Cultural Amarelinho da Luz, no prédio vizinho à sede, situado diante do Largo General Osório, e pela realização do Ciclo de Olhares: Luz e Sombra, em parceria com o Sesc Bom Retiro, em 2013. Assisti também à intervenção artística realizada no fim do ano, diante da Estação Pinacoteca. Todas as vezes em que estive por lá não deixei de notar os usuários que circulam no entorno. Gente como a gente – só que para boa parte da população e do governo, invisíveis ou abominados. Continue lendo

MITsp • Lígia Jardim • Hamlet

O teatro que nos move

Uma análise bastante subjetiva dos rastros deixados pela 1ª MITsp

 

A 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo começou para mim na quarta-feira 5 de março, quando me encontrei pela primeira vez com o encenador inglês Simon McBurney, cofundador e atual diretor artístico da companhia Complicite, e o designer sonoro Gareth Fry, além dos artistas que participariam do Intercâmbio Artístico, um dos quatro eixos previstos no evento. Pela primeira vez em terras brasileiras e recém-chegado à cidade, Simon disse naquela noite algo que repetiria nos quatro dias seguintes de workshop: “O que importa no teatro é o resíduo que deixa no público”.  Afinal, segundo ele, o espetáculo ocorre na imaginação do espectador, que é quem organiza todos os elementos daquele universo no qual se encontra inserido. Diálogos, narrativas, gestos, deslocamentos, dança, luz, objetos, cenário, música, sons e até mesmo a respiração do ator, tudo compõe “esse mistério que é o teatro”. Encenador e atores podem querer dizer milhares de coisas em – e com – a cena, mas entre o dito e o compreendido/captado pela plateia há sempre uma lacuna.

Passados alguns dias desde o fim da MITsp, cuja programação de espetáculos aconteceu de 8 a 16 de março, reflito sobre o “resíduo” que a experiência deixou em mim. Poderia até arriscar algumas opiniões mais gerais, levando em conta as longas filas de espera para conseguir ingressos ou entrar nas salas, a oportunidade de ver obras de destaque na produção internacional contemporânea, a iniciativa de promover diálogos entre artistas, pesquisadores e espectadores etc., e resumir que a mostra foi um êxito apesar de alguns problemas de organização. Contudo, prefiro apoiar minhas análises nas impressões geradas pelas obras, pela participação no workshop e pela interação com o coletivo de críticos. Continue lendo

A humanidade perdida

Reflexões a respeito das peças “Sobre o Conceito de Rosto no Filho de Deus” e “Gólgota Picnic” da 1ª MITsp

A imagem de Cristo, em reprodução gigante da pintura do italiano Antonello de Messina, paira serena e contemplativa diante da plateia e do palco e, a todo instante, desloca nosso olhar. Cena do espetáculo de Castellucci. (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

A imagem de Cristo, em reprodução gigante da pintura do italiano Antonello de Messina, paira serena e contemplativa diante da plateia e do palco e, a todo instante, desloca nosso olhar. Cena do espetáculo de Castellucci. (Foto: Lígia Jardim/MITsp)

 

O termo “escatologia” tem dois significados dissonantes – pode referir-se tanto ao “tratado acerca dos excrementos”, no campo médico, quanto ao “estudo sobre o fim dos tempos” na Teologia e na Filosofia, debruçando-se sobre os estágios últimos do gênero humano e do mundo. Reconheçamos: somos feitos de matéria finita e, uma vez desprovido de vida, nosso corpo voltará a ser pó. Enquanto vivemos, nosso organismo se dedica mecanicamente a um fluxo contínuo de eliminação de resíduos desnecessários – urina, fezes e suor –, que só se interrompe com a morte. Ora, numa conclusão apressada e capciosa, poderíamos dizer que o destino humano é intrinsecamente escatológico: impossível negar os próprios excrementos, impossível driblar o fim da matéria.

Mas sabemos – sabemos? – que o gênero humano não se reduz a merda e pó. Afinal, pertencemos à espécie dos “sapiens”, seres humanos com consciência e racionalidade, não é? Temos afetos, estabelecemos relações. Validamos nossa existência porque pensamos (Descartes), porque somos percebidos (Berkeley), pela experiência da fé (Kierkegaard) e – na concepção mais em voga atualmente – porque consumimos (Benjamin, Agamben). Em sua trajetória evolutiva, a humanidade tomou conta do mundo literal e metaforicamente e, entre o espanto e o narcisismo, constatou que pode criar e destruir, destruir e criar, quase ad infinitum. Quase. O ser humano descobriu que o gran finale não lhe pertence. E que o “fim dos fins” parece mesmo irreversível, a despeito de todas as conquistas intelectuais, científicas e tecnológicas. Enquanto isso, a produção de bens e o consumo seguem a galope, assim como a eliminação de dejetos e excrementos individuais e coletivos. O show não pode parar. Continue lendo

Do baú de recordações: a vida e seus mistérios

*O italiano Roberto Sturno como Pilatos na peça "Il Vangelo Secondo Pilato" (crédito: divulgação)

Remexendo em papéis antigos, encontrei o programa de uma peça a que assisti em dezembro de 2009, quando estive por uns meses na Itália, aprendendo o idioma, visitando amigos e revisitando raízes: Il Vangelo Secondo Pilato, do francês Eric-Emmanuel Schmitt, com direção de Glauco Mauri. Reler o programa, bem nesse Sábado de Aleluia, me fez reviver o impacto que aquele espetáculo provocou em mim. Saí aturdida do teatro, em Ferrara, na região do Vêneto e do Rio Pó (nas proximidades do paesino onde nasceram meus bisavós maternos). Enquanto me divertia como criança pisando na neve fofa – havia cerca de dez centímetros no chão e foi a primeira vez que vira os flocos caindo, quanto encantamento –, pensava na beleza daquela montagem e na inteligência do texto. Talvez não tenha entendido exatamente todas as palavras ou frases, o que pouco importa, pois compreendi a essência da narrativa. Como já afirmei num post mais antigo, há peças que reverberam durante muito tempo dentro de mim. Desta, guardei certas imagens na memória, que agora retomo, e aquele forte sentimento de epifania.

O Evangelho segundo Pilatos é a versão teatral do livro homônimo escrito pelo mesmo Eric-Emmanuel Schmitt. No primeiro ato, um homem (o próprio Glauco Mauri, septuagenário à época) fala sobre Jesus. Encontra-se no Jardim das Oliveiras, antes de os soldados romanos chegarem. O angustiado homem está ciente do suplício que o espera. Terá mesmo uma natureza divina?, questiona-se, enquanto rememora sua vida aparentemente normal, mas permeada por feitos extraordinários. Precisaria mesmo passar pelo martírio? Recorda a surpresa que foi descobrir-se o Filho de Deus, o Salvador. Entre a fé e a dúvida, compreende que, para sua missão, aquele desfecho é inevitável – e necessário. “Só depois de minha morte saberemos se fui um tolo ou não”, diz. Estamos, então, diante do próprio Jesus? Em sua montagem, Mauri fez uma ousada adaptação ao assumir o papel em vez de chamar um ator mais jovem, que seria facilmente associado ao personagem. Afinal, Jesus morreu ou não?, nós, público, nos perguntamos.

No segundo ato, Pilatos (Roberto Sturno) conversa com o escrivão (Marco Blanchi) em seu palácio em Jerusalém – e daí surgem belas cenas. Ficamos sabendo da angústia desse homem que se viu diante de um impasse: condenar Jesus à cruz, apesar dos alertas e dos sonhos de sua mulher, Claudia, e sem estar convicto de que aquela seria a melhor solução. Agora, ao receber a notícia que o corpo havia sumido e que a comoção passou a tomar conta do povo, não sabe mais o que pensar. Pilatos tenta se amparar na razão, nos fatos e na lógica, mas ainda assim não se convence. Chega ao limite das explicações possíveis e das justificativas plausíveis, que não o satisfazem, e constata que a única saída é render-se ao mistério. Ao inefável mistério da vida.

Ele fala ao escrivão: “No caso Jesus, procurei salvar a razão, salvá-la a todo custo contra o mistério. Falhei e concluí que havia qualquer coisa de incompreensível. Me lamento frequentemente com Claudia: antes, eu era um romano que sabia; agora, sou um romano que duvida. E minha mulher ri e bate as mãos como se eu lhe fizesse um número de malabarismo. ‘Duvidar e crer são a mesma coisa, Pilatos. Só a indiferença é ateia’”.

Pilatos resistiu o quanto pode. Mas, depois de muito quebrar cabeça, se viu na rota de milhares de peregrinos que acredita(ra)m sem jamais ter visto…

Saí do teatro com essa poderosa sensação de que viver vale a pena porque o mistério faz parte da existência, porque nem tudo pode ser explicado – e isso me fascina deveras.

Feliz Páscoa!

* O italiano Glauco Mauri, também diretor da peça, como o homem que fala sobre Jesus (crédito: divulgação).