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* Um faroeste realizado em plena Cracolândia revela-se bastante significativo no atual contexto de debates sobre a São Paulo do século 21. (Foto: Rodrigo Reis)

Era uma vez na Cracolândia

Já faz alguns dias que estou para escrever sobre Homem Não Entra, espetáculo mais recente da Cia. Pessoal do Faroeste. Tenho cada vez mais certeza que os méritos dessa peça ultrapassam a performance apresentada na sede da companhia, na Rua do Triunfo, e alcançam um debate fundamental sobre a cidade e seus habitantes que urge ser ampliado e disseminado. Que processos – autoritários ou democráticos – estão em curso hoje em dia? Quais seriam os atuais duelos da São Paulo contemporânea? E os personagens desses “acertos de contas”?

A peça, escrita pelo jornalista Rodrigo Pereira, pesquisador e inveterado fã de faroestes, e por Paulo Faria, também diretor da montagem, se passa em 30 de dezembro de 1953, no dia do polêmico decreto proposto pelo então prefeito Jânio Quadros e promulgado pelo governador Lucas Garcez, que visava acabar com a chamada Zona Livre, área de prostituição no Bom Retiro. As prostitutas expulsas dali migram para a região no entorno da Estação da Luz, que ficaria conhecida por nomes como Quadrilátero do Pecado, Boca do Lixo e, mais recentemente, Cracolândia. A prostituta Brigitte, nascida Brígida, interpretada por Mel Lisboa, desponta como liderança. Por questões pessoais, mata uma cafetina e seu amante, um poderoso fazendeiro. Assume o comando do estabelecimento da mulher assassinada e, em provocação ao xerife Mardock (Roberto Leite), o mantenedor da ordem e da segurança daqueles bairros, não cancela a festa de ano-novo programada para o local. O corrupto e ardiloso Mardock teme que o evento se torne um ponto de encontro da bandidagem. E tem outra preocupação para aquela noite: a chegada do pistoleiro Django (José Roberto Jardim), com quem o xerife tem uma disputa pendente.

Sede de vingança
Um dos grandes trunfos da peça foi justamente a opção pelo faroeste, nada comum no teatro. Apesar dos riscos de encenar um western no palco, a montagem tem muitos acertos. Os principais elementos do gênero estão presentes: o sentimento de vingança, que impulsiona e opõe os personagens; um acerto de contas com o passado, baseado em códigos de honra ou de justiça; duelos ambientados num lugar que gradativamente se torna “civilizado” e o contraste proposital entre os símbolos do progresso (trem, imprensa…) e o ambiente sem lei das cidades nascentes (os saloons, os bordéis, a marginalidade), para citar alguns. Nos faroestes cinematográficos, é bastante comum o uso do grande plano geral, preenchendo a telona com paisagens poeirentas e inóspitas, e do plano americano (que flagra os personagens dos joelhos para cima). Faço essa breve menção para comentar a inteligente escolha por um cenário horizontal comprido, que começa no bar da entrada da sede e segue até a saleta de bilhar. O palco, em três planos, explora enquadramentos diferenciados dos personagens e se torna locação interna ou externa de acordo com a cena. E em nenhum momento esquecemos que estamos mesmo na Rua do Triunfo, na cidade de São Paulo, nessa metrópole repleta de lugares socialmente “interditos”. No ápice do espetáculo, quando finalmente Brigitte, Mardock e Django duelam, temos ali, no Largo General Osório, tendo a Sala São Paulo atrás (antigo prédio da Estrada de Ferro Sorocabana), nosso grande plano geral.

Outro trunfo da peça é a presença do coro, que funciona muito bem. O bando de homens maus é mais que um punhado de coadjuvantes: compõe as cenas e dá fluxo à narrativa. Achei o início da peça magistral, com aquela passagem “a galope” dos atores – que serve de metáfora também aos trens que chegavam às estações ferroviárias das redondezas e traziam tanto a riqueza quanto forasteiros com sede de vingança.

Movimentos precisos
Se há uma diferença crucial, contudo, entre os clássicos do faroeste e a peça, essa está na verborragia da segunda. Os personagens de western costumam ser figuras de poucas palavras e olhares contundentes, que falam o estritamente necessário e não gastam paciência nem energia com discursos extensos. Homem Não Entra, por sua vez, é um espetáculo de muitos diálogos e falas longas. Isso se explica porque o texto, além de comportar parte das ações passadas (os personagens contam por que agem como agem no momento presente), desenha todo o contexto daquela São Paulo em progresso. Ficamos sabendo da 2ª Bienal de Arte da cidade, do sucesso do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz e exibido em Cannes, da ascensão de espaços urbanos ainda novos, como o Parque do Ibirapuera e a Avenida Paulista. Embora a trama se beneficie desse contexto, há diálogos que soam forçados, didáticos demais. Em geral, o personagem do jornalista Romã (Beto Magnani) é o encarregado de introduzir tais assuntos. Aliás, Romã é uma figura interessante na trama; esperto e escorregadio, tenta tirar vantagem de sua relação tanto com Mardock quanto com Brigitte, aproveitando seu ar sedutor e sabichão.

Para dar conta do texto a ser dito, o diretor Paulo Faria optou por cenas mais estáticas, com o mínimo de movimentos e precisão de gestos. Em geral, os atores se saem muito bem, mas quem se destaca é Mel Lisboa, que nos oferece uma Brigitte vigorosa e contundente. Mais que uma prostituta sedutora, porém rancorosa e vingativa, Brigitte é uma mulher bastante consciente de seu papel na sociedade. Não se enxerga como vítima de um trauma sexual ou de um sistema nebuloso; identifica com muita clareza os jogos de poder que a envolvem e não se nega a participar deles. Homem não entra em sua vida – talvez Django, se mostrar que merece –, homem não entra em seus negócios. O protagonismo de Brigitte, muito mais que o de Django, me parece outro acerto da peça. Por outro lado, a outra personagem feminina, Ramirez, esposa de Mardock, não me convence. Embora a atriz Thaís Aguiar lhe empreste graça e humor, a pobre Ramirez me parece dispensável, um tanto clichê. Faltou mencionar o divertido Hadur, interpretado por Marcelo Szykmann, responsável pelas melhores tiradas da peça. As passagens coreografadas, em que há duelos e tiroteios, e a trilha de Felipe Roseno com sonoplastia de Jorge Peña (fiel à atmosfera de faroeste) merecem aplausos.

* As motivações da prostituta Brigitte vão além de um mero acerto de contas com seu passado. Crédito: Rodrigo Reis.

O lado sombrio da cidade
Com 15 anos de trajetória e sede na Rua do Triunfo, a Cia. Pessoal do Faroeste parte de um fato histórico para montar um “faroeste trágico”, que nos faz pensar muito mais sobre a São Paulo do século 21 do que necessariamente sobre a “cidade em processo civilizatório” da década de 1950. Ainda mantemos essa expectativa de que a “ordem” e a “segurança” venham nos salvar do ambiente sem lei que impera na megalópole. Uma certa iniciativa de “limpeza social”, apoiada nas estatísticas sobre a violência, tem estado em curso já há bastante tempo. Certos grupos, embora “indesejáveis” a uns quantos olhos, continuam ocupando calçadas, esquinas, imóveis abandonados. Andamos todos blindados, escondidos atrás de grades e muros. Não nego que realmente enfrentamos um problema concreto de criminalidade, mas questiono a manipulação de nossa sensação de insegurança com vistas a determinados fins (nada nobres). Além disso, o espaço urbano coletivo tem sido cada vez mais desapropriado em nome de interesses privados – projetos de revitalização que têm na verticalização sua bandeira visam beneficiar a quem, exatamente?

Fragmentar a cidade em “ambientes saudáveis e familiares” versus “redutos de marginalidade” é a solução? Tampouco consigo entender o descaso governamental que paira sobre áreas históricas ou tradicionais de São Paulo, totalmente abandonadas, condenadas à decadência e à degradação completas até, subitamente, se transformarem em zonas de interesse “social” e especulação imobiliária. Por isso, o clamor de Brigitte – em determinado momento do espetáculo – ecoa de modo dolorido e agudo não só pelas fachadas descascadas e sujas da Cracolândia e da região da Luz, mas por toda a cidade. Acorda os cidadãos sonâmbulos, sacudindo-lhes a indiferença. Dá voz a quem já desaprendeu a fala, o protesto, o pedido de socorro. E chama a atenção para nossa responsabilidade diante do outro e da coletividade.

Responsabilidade diante do outro
Me recordo de uma conferência da filósofa estadunidense Judith Butler, Vida Precária e as Condições de Coabitação, em que ela falava justamente sobre o compromisso ético de preservar não só a própria vida (no sentido mais amplo do termo “preservar) mas também a vida do outro, com a consciência de que a convivência com os demais habitantes do planeta não é uma escolha. Vivemos em inevitável relação de interdependência; e essa proximidade obrigatória com o outro (mesmo indesejável) expõe a precariedade de nossa condição social. Butler toma como exemplo o conflito Israel e Palestina, traça paralelos e aponta contradições entre o pensamento de dois filósofos judeus, o lituano Emmanuel Levinas (1906-1995) e a alemã Hannah Arendt (1906-1975), e conclui: “Se tentamos entender em termos concretos o que significa nos comprometermos em preservar a existência do outro, seremos invariavelmente confrontados com as condições físicas da vida; um compromisso, então, não só com a persistência corporal do outro, mas com todos os fatores ambientais que tornam sua vida suportável”.

Poderia ser uma tragédia grega. Ou uma obra de Bertold Brecht. Neste nosso caso, é um faroeste – com todas suas instigantes questões sobre progresso e civilização, barbárie e justiça (ainda que sejam códigos privados de justiça). O fato é que a peça traz à tona questões escamoteadas sobre o espaço urbano – muito pertinentes para se discutir o conceito de “desenvolvimento” em voga. Por isso, não me parece nada irrelevante que tenhamos um faroeste em plena Cracolândia. Obrigada, Paulo Faria, Rodrigo Pereira & elenco.

 

HOMEM NÃO ENTRA. Até 18/8, sáb. 23h e dom. 17h. Sede Luz do Faroeste: Rua do Triunfo, 305, Metrô Luz, tel. 3362-8883. Gênero: Faroeste. Duração: 60 min. Classificação: 18 anos. Ingressos: pague quanto puder (antecipados ou reserva: R$ 40).

* Brigitte (Mel Lisboa), apoiada por Hadur (Marcelo Szykmann), à esq., e Django (José Roberto Jardim), confronta Mardock (Roberto Leite). Ramirez (Thaís Aguiar) observa a cena, ao fundo. Crédito: Rodrigo Reis.