Arquivo da categoria: Meus dias com Clarice

MEUS DIAS COM CLARICE – dia #C

(Leituras inventivas, às vezes reinventadas, de um processo criativo)

DIA C

Não saímos de casa, Clarice e eu. Pegamos uma gripe forte, daquelas que derrubam as defesas do corpo e da alma. Havia a ressaca dos arranhões ininterruptos dos dias anteriores – uma vez mais, seria preciso percorrer rotas (ó) rotas (ô) para manter as salvaguardas em pé?

Como se não bastasse. Reparo que Clarice parece gostar dessa fórmula. Como se não bastasse a claridade das duas horas. Como se não bastasse seu olhar paciente e submisso. Como se eu mesma não me bastasse. Como se o mundo não bastasse para mim. Continue lendo

MEUS DIAS COM CLARICE – dia #B

(Leituras inventivas, às vezes reinventadas, de um processo criativo)

DIA B

Caminho em direção ao Metrô Vergueiro. Brinco com o texto de Clarice, o texto que carrego na memória (será que decorei direitinho?). Repasso em silêncio: Ela estava com soluço. E, como se não bastasse a claridade das duas da tarde, ela era ruiva. Me distraio com os demais pedestres. Não vejo ruivo algum, são quase todos morenos. Um desses guardadores de carro passa por mim resmungando. Resolvo falar em voz baixa: Ela estava com soluço. E, como se não bastasse a claridade das duas da tarde, ela era ruiva. Na rua vazia, as pedras vibravam de calor: a cabeça da menina flamejava. Minha cabeça também flamejava: depois de uma noite gelada, uma manhã agressivamente quente. Muita gente no viaduto da Beneficência Portuguesa. Alguns encapotados até as orelhas, outros quase desnudos. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Caminhava em ziguezague, suportando. Manter o próprio ritmo de passadas numa calçada cheia gente, indivíduos imprecisos e falíveis como eu, às vezes é um ato de ousadia – ou de petulância, de acordo com o ponto de vista. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. O rapaz me olha, com estranhamento. Uso óculos escuros, daqueles bem grandes. Volto a pensar: viaduto globalizado. Camelôs de diversas origens. Passo por imigrantes provavelmente bolivianos e seus produtos estendidos sobre um lençol no chão. Antes vendiam echarpes típicas, coloridas e chamativas, agora são essas blusas feiosas (na minha humilde opinião, é claro), encontradas aos montes na 25 de Março. Têm mais clientes. E, como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento em momento. Desvio de um senhor muito lento, quase esbarro num rapaz magro, de suéter azul. Os camelôs seguintes são africanos e vendem bugigangas: relógios, capas para o celular, recarregadores. O que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Eu e a menina ruiva, que acolhi dentro de mim. Eu e a 23 de maio abarrotada de carros. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Porque não há mais bondes, talvez, embora existam ainda camelôs nordestinos, denunciados pelo sotaque, que vendem DVDs piratas e frutas. Um rapaz fala: você gasta muito com cigarros. Inspiro fumaça. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Espirro. E entro no metrô.

Detalhes de duas pinturas do austríaco Gustav Klimt: "Beethoven Frieze" sobre "Árvore da Vida".

Detalhes de duas pinturas do austríaco Gustav Klimt: “Beethoven Frieze” sobre “Árvore da Vida”.

MEUS DIAS COM CLARICE – dia #A

(Leituras inventivas, às vezes reinventadas, de um processo criativo)

DIA A

O impulso que nos move. Movo a cabeça. A falta que nos move. Avisto. Jo-ha-kyū. O impulso me impele a avançar na direção daquele que vejo, mas a respiração se corta – soluço? susto? surpresa? –, então paro. Ela estava com soluço. E, como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Jo-ha-kyū.  Nascimento – crescimento – morte (para posterior renascimento). Retomo o impulso: suspensa, surpresa, soluçante, avanço um pouco mais. Apenas um pouquinho mais. Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Oh. A curiosidade e o encanto me impelem. Jo… Ambos se olhavam. …ha… Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos. …kyū! O que foi que se disseram? Não se sabe! Avanço, movimentos de gata. Oh! Desabo. Mas ambos eram comprometidos. A falta que nos move é a mesma que nos estanca. Quero fugir, mas não fujo. Apenas deixo aquela cena delicadamente. Mas ele foi mais forte que ela. Sim, eu olhei para trás.