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Ter ou não ter uma cabeça de papelão?

* Adriano Merlini como Antenor, o homem que só dizia a verdade (divulgação).

Entre as várias demandas que emergem das ruas, a punição para casos de corrupção parece ser a mais generalizada e genérica delas. Infelizmente, a prática de suborno, nepotismo, peculato, extorsão e outros atos ilícitos nas esferas públicas (e privadas) brasileiras não é novidade. Talvez tenha se tornado mais explícita e disseminada na última década, e a população agora venha encontrando mais meios de descobrir e denunciar tais casos, mas a obtenção de vantagens se revela, infelizmente, um comportamento entranhado na história do país; basta ler as obras do arguto dramaturgo carioca Martins Pena (1815-1848), por exemplo, para saber dos tipos inescrupulosos que circulavam pelos cargos públicos na época do Império. A indignação popular nas ruas produziu um resultado interessante (ainda é cedo para saber se será apenas um verniz de efeito ou uma mudança de fato): em 26 de junho, o Senado aprovou projeto de lei atualmente em análise pela Câmara dos Deputados, propondo que a corrupção seja considerada um crime hediondo.

Enquanto isso, nas redes sociais, passou a circular um daqueles posts-spam (replicados por meio mundo), que dizia algo assim: não basta ser contrário à corrupção na política se você, em seu cotidiano, paga propina, desrespeita as leis de trânsito, quer levar vantagem, dá um jeitinho de burlar as regras etc. Interessante, não? O tal post pode soar uma obviedade, mas é curioso notar que muitos dos “indignados” que condenam práticas ilícitas no meio público replicam-nas, eles mesmos, no âmbito privado. O jornalista e escritor João do Rio (1881-1921), flaneur atento das gentes, das ruas e dos segredos mais secretos do Rio de Janeiro, escreveu uma crônica deliciosa, O Homem de Cabeça de Papelão, na qual aborda de um modo criativo e irreverente uma certa tendência à malandragem criticada, mas igualmente admitida, pela sociedade brasileira.

No País do Sol, Antenor era considerado uma exceção mal vista, um fulano de cabeça desarranjada por ir sempre em desacordo com a norma de seus concidadãos: afinal, ele dizia sempre a verdade. “Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira”, escreve João do Rio. “Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.” Antenor, para desespero da mãe, não via nada de errado em seu comportamento. Mal conseguia parar num emprego: despertava a ira dos patrões e a inveja dos colegas. Mas, certo dia, se apaixonou. E Maria Antônia, sua amada, impôs uma condição para ficar com ele: que tomasse juízo e agisse como os outros.

O conto de João do Rio foi adaptado para os palcos pela dramaturga Ana Roxo – e, diga-se de passagem, de forma exitosa – a pedido do diretor Kleber Montanheiro, da Cia. de Revista. Ganhou uma leitura atual justamente para que a atualidade de suas questões fosse ressaltada e pudesse ser encenado segundo a linguagem do teatro de revista, pesquisado pela companhia. O resultado foi o ótimo e divertido musical Cabeça de Papelão, que encerrou temporada em 30 de junho. O elenco desenvolto e afinado, a montagem criativa, a boa direção musical e os excelentes figurinos se combinam num espetáculo que toca em questões sérias de um modo leve e inteligente. O aproveitamento do espaço cênico (no próprio Miniteatro, ocupado pela companhia) merece aplausos. Funciona como uma arena retangular, que permite aos espectadores acompanharem a peça de diversos pontos de vista. Mais uma prova de que bom teatro se faz com texto afiado, atores comprometidos – que demonstram um prazer enorme em atuar –, uma direção fluida (que confia mais que ordena), muito jogo e criatividade.

>> “Privilégios” de ter uma cabeça de papelão

O apaixonado Antenor decide dar um jeito em sua cabeça aparentemente desarranjada. Encontra um tipo numa loja de manutenção de eletrônicos (no conto, um relojoeiro) que se compromete a examiná-la. Enquanto sua cabeça fica sob análise, o homem lhe empresta uma de papelão. Conta João do Rio: “Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco. Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava”. Maria Antônia se encantou com o novo Antenor. Mas, agora, ela era apenas mais uma das tantas mulheres interessadas nesse homem tão “ajuizado” e influente.

A Cia. da Revista está de parabéns tanto por sua contribuição artística – afinal, uma encenação tão bacana como a de Cabeça de Papelão revela comprometimento, trabalho e ousadia – quanto pela questão pertinente e atual que traz para o debate. Por que ainda optamos por cabeças de papelão? Por que, até hoje, a franqueza e a honestidade assustam? Como e por que exigir dos outros comportamentos e práticas que não assumimos para nós? Cada grupo teatral têm suas pesquisas estéticas e temáticas, que podem resultar em espetáculos mais ou menos bem-sucedidos. Toda pesquisa é legítima, por supuesto. Mas, na minha opinião, as escolhas sempre, sempre revelam um certo posicionamento diante da realidade; me atreveria a dizer posicionamento político, no sentido amplo do termo “político” (muito além de partidos e afins). O “por quê falar disso agora” e o “por quê falar disso assim” indicam posturas em relação à vida, visões de mundo. Tais opções não são inocentes. Sempre penso nisso quando saio de um espetáculo – e assisto a tantos; por dever do ofício, até a musicais enlatados, meras reproduções da Broadway.

Podemos ser passivos ou participativos. Indiferentes ou atentos. Ousados ou acomodados. Indignados apenas ou revolucionários – nas ruas, na arte, na esfera pública ou privada e em nosso cotidiano. Podemos somente trocar o verniz ou mudar de fato. Se Antenor não tivesse abandonado sua “cabeça desarranjada”, poderíamos perguntar a ele se lhe parecemos ainda tão contraditórios. Ele seguramente nos diria a verdade, sem medo.

* As atrizes Gabriela Segato, Luiza Torres e Natália Quadros em cena do musical (divulgação).

CABEÇA DE PAPELÃO. Direção: Kleber Montanheiro. Dramaturgia: Ana Roxo. Direção musical: Adilson Rodrigues. Elenco/ Cia. da Revista: Adriano Merlini, Bruna Longo, Daniela Flor, Gabriela Segato, Heloisa Maria, Luiza Torres, Natália Quadros, Paulo Vasconcelos, Pedro Bacellar, Rafael Presto. Músicos: Gabriel Hernandez, Nina Hotimsky.

O gesto essencial: a presença cênica (1)

Nas últimas semanas, assisti a três espetáculos internacionais que passaram pela cidade: Hamlet, da companhia estadunidense The Wooster Group; o coreano Ukchuk-Ga (Mãe Coragem), da Project Project ZA, que se apresentou no Sesc Vila Mariana e agora segue para o Festival de Teatro de Curitiba, e o inglês Translunar Paradise, em cartaz no CCBB até 7 de abril. Ainda que com grandes diferenças de linguagem – basta dizer que as apresentações do The Wooster Group contam com uma grande equipe técnica para dar conta das projeções e de todo aparato que está em cena com os atores enquanto o pansori, versão mais contemporânea da tradicional narrativa musical coreana, se resume a uma atriz-cantora, músicos e trabalho de luz –, os três espetáculos me fizeram refletir sobre um pilar do teatro, que geralmente acaba esquecido nas superproduções ou nas peças-cabeça pretensiosas, aquelas com muito discurso, pouco corpo e quase nada de jogo: o gesto essencial.

Uma breve digressão a respeito, despertada talvez pelo reencontro casual com Elisa Oliveira, produtora de Ukchuk-Ga e educadora no Centro Livre de Artes Cênicas, em São Bernardo. Atriz com formação e experiência internacional, Elisa segue a linha do teatro gestual. Viveu na Espanha por uma década e, quando voltou ao Brasil, passou a dar oficinas e cursos. Participei de um deles. Trabalhávamos o corpo, esse contador de histórias, fonte de poesia e imagens, antes de lidar com qualquer ideia, texto ou cena. Lapidávamos o gesto, o movimento, as intenções contidas num abanar de mão ou num ajoelhar-se.  Me lembro bem do dia em que levei um amigo turco, o Bora, que me visitava naquele período, para um dos encontros. Elisa me dizia: “Não precisa traduzir todas as orientações para ele; ao ver o que estamos fazendo, ele entenderá”. Foi uma experiência mágica para o Bora (que nunca havia feito teatro na vida), da qual ele se recorda até hoje. Um dos exercícios era correr até a beira do cais do porto e constatar que o navio, que levava nosso grande amor, acabara de partir. Havíamos perdido a despedida derradeira. Acenávamos – mas… seria em vão aquele aceno? Surgiram cenas lindas e verdadeiras, posto que preenchíamos aquela narrativa com nossas histórias, nossos afetos, nossas motivações. E, principalmente, com nosso corpo.

A cantora JaRam Lee e o percussionista da Pansori Project ZA durante apresentação de "Ukchuk-Ga" (Mãe Coragem)

UKCHUK-GA, Pansori Project ZA

O pansori é uma espécie de contação de histórias musicada, originada da tradição oral na Coreia durante a chamada Dinastia Joseon (ou Choson), que atravessou do século 14 ao 19. Considerado patrimônio cultural imaterial pela Unesco desde 1964 e bastante popular naquele país, o pansori recorre a narrativas geralmente associadas ao período Joseon, muitas com temas rurais ou de conquistas, e é realizado por uma cantora e um percussionista. As apresentações, caracterizadas por uma história dramática cantada, com gestual específico e uma interpretação vívida, podem durar até oito horas.

A Pansori Project ZA trouxe uma versão contemporânea do gênero teatral coreano, com mais músicos e instrumentos em cena. E apresentou uma leitura da obra Mãe Coragem e Seus Filhos (1939), do alemão Bertold Brecht, que conta a sofrida trajetória da mascate Anna, apelidada de “Mãe Coragem”, que perde seus três filhos para a mesma guerra que garante sua sobrevivência econômica. Na apresentação da companhia, Anna é o “nome globalizado” da coreana Sun-Jong Kim, abandonada desde muito jovem por seus companheiros, única responsável por três crianças, que, como forma de sobrevivência, se transforma numa arguta comerciante durante as sangrentas guerras asiáticas.

A sorikkun (vocalista) Ja-Ram Lee escreveu o roteiro e compôs todas as músicas do pungente e emocionante espetáculo. São três horas de entrega, técnica e vigor numa presença cênica fenomenal. Simpática e competente, Ja-Ram segura a atenção da plateia e interpreta quase duas dezenas de personagens, passando de um para outro por meio de inflexões de voz, gestos claros e límpidos e um respirar diferente. Há leveza e verdade em sua atuação. E quase não existe cenário – as cortinas e a bela iluminação se encarregam de criar as atmosferas, acompanhando os três músicos. E só. Para quem acredita que o teatro apenas acontece com a “literalidade” – cenários extraordinários e explicativos, infinidades de objetos em cena, figurinos óbvios e outros penduricalhos inúteis –, vá ver urgentemente o pansori de Ja-Ram & companhia. Está na mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba, realizado na capital paranaense de 26 de março a 7 de abril.