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Do baú de recordações: a vida e seus mistérios

*O italiano Roberto Sturno como Pilatos na peça "Il Vangelo Secondo Pilato" (crédito: divulgação)

Remexendo em papéis antigos, encontrei o programa de uma peça a que assisti em dezembro de 2009, quando estive por uns meses na Itália, aprendendo o idioma, visitando amigos e revisitando raízes: Il Vangelo Secondo Pilato, do francês Eric-Emmanuel Schmitt, com direção de Glauco Mauri. Reler o programa, bem nesse Sábado de Aleluia, me fez reviver o impacto que aquele espetáculo provocou em mim. Saí aturdida do teatro, em Ferrara, na região do Vêneto e do Rio Pó (nas proximidades do paesino onde nasceram meus bisavós maternos). Enquanto me divertia como criança pisando na neve fofa – havia cerca de dez centímetros no chão e foi a primeira vez que vira os flocos caindo, quanto encantamento –, pensava na beleza daquela montagem e na inteligência do texto. Talvez não tenha entendido exatamente todas as palavras ou frases, o que pouco importa, pois compreendi a essência da narrativa. Como já afirmei num post mais antigo, há peças que reverberam durante muito tempo dentro de mim. Desta, guardei certas imagens na memória, que agora retomo, e aquele forte sentimento de epifania.

O Evangelho segundo Pilatos é a versão teatral do livro homônimo escrito pelo mesmo Eric-Emmanuel Schmitt. No primeiro ato, um homem (o próprio Glauco Mauri, septuagenário à época) fala sobre Jesus. Encontra-se no Jardim das Oliveiras, antes de os soldados romanos chegarem. O angustiado homem está ciente do suplício que o espera. Terá mesmo uma natureza divina?, questiona-se, enquanto rememora sua vida aparentemente normal, mas permeada por feitos extraordinários. Precisaria mesmo passar pelo martírio? Recorda a surpresa que foi descobrir-se o Filho de Deus, o Salvador. Entre a fé e a dúvida, compreende que, para sua missão, aquele desfecho é inevitável – e necessário. “Só depois de minha morte saberemos se fui um tolo ou não”, diz. Estamos, então, diante do próprio Jesus? Em sua montagem, Mauri fez uma ousada adaptação ao assumir o papel em vez de chamar um ator mais jovem, que seria facilmente associado ao personagem. Afinal, Jesus morreu ou não?, nós, público, nos perguntamos.

No segundo ato, Pilatos (Roberto Sturno) conversa com o escrivão (Marco Blanchi) em seu palácio em Jerusalém – e daí surgem belas cenas. Ficamos sabendo da angústia desse homem que se viu diante de um impasse: condenar Jesus à cruz, apesar dos alertas e dos sonhos de sua mulher, Claudia, e sem estar convicto de que aquela seria a melhor solução. Agora, ao receber a notícia que o corpo havia sumido e que a comoção passou a tomar conta do povo, não sabe mais o que pensar. Pilatos tenta se amparar na razão, nos fatos e na lógica, mas ainda assim não se convence. Chega ao limite das explicações possíveis e das justificativas plausíveis, que não o satisfazem, e constata que a única saída é render-se ao mistério. Ao inefável mistério da vida.

Ele fala ao escrivão: “No caso Jesus, procurei salvar a razão, salvá-la a todo custo contra o mistério. Falhei e concluí que havia qualquer coisa de incompreensível. Me lamento frequentemente com Claudia: antes, eu era um romano que sabia; agora, sou um romano que duvida. E minha mulher ri e bate as mãos como se eu lhe fizesse um número de malabarismo. ‘Duvidar e crer são a mesma coisa, Pilatos. Só a indiferença é ateia’”.

Pilatos resistiu o quanto pode. Mas, depois de muito quebrar cabeça, se viu na rota de milhares de peregrinos que acredita(ra)m sem jamais ter visto…

Saí do teatro com essa poderosa sensação de que viver vale a pena porque o mistério faz parte da existência, porque nem tudo pode ser explicado – e isso me fascina deveras.

Feliz Páscoa!

* O italiano Glauco Mauri, também diretor da peça, como o homem que fala sobre Jesus (crédito: divulgação).