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O Artista (André Guerreiro) e, ao fundo, o músico (Gregory Slivar), presente em cena durante todo o espetáculo. (Foto: Felipe Stucchi)

Entre a lucidez e o delírio

Era um daqueles dias em que a existência parecia recortada do contexto a que pertence (se é que pertence a algum contexto). Isso, na verdade, ocorre com alguma frequência para mim. Para você não? Às vezes, tudo se revela desencaixado enquanto eu permaneço sensata, resoluta e centrada. Em outros momentos, perco o passo e a sintonia com o amplo universo ao meu redor; me sinto irregular, turbulenta, diante da organização exterior. E há instantes de puro delírio, em que não tenho certeza sobre de que lado da fronteira estou: se na realidade percebida, ou se naquela inventada.

Era um daqueles dias, portanto. A rua parecia bem mais calma do que de costume; ouvia pássaros por todos os lados. O sol tímido iluminava as pequenas poças na calçada molhada. Cruzei com dois cães, um miúdo e negro, outro grande e quase amarelo, e tive a impressão de ouvir: “Você sempre faz isso. Sempre enrola. Enrola, enrola”. Eu tinha muita pressa, e tudo, o tempo, o vento, o cimento, tudo andava devagar. O que andava? Não havia carros. Os sinais estavam todos verdes. E as poucas pessoas que eu encontrava, nas mesmas calçadas percorridas duas, três, dez vezes, pareciam a mim mesma – mais novas, mais velhas, mais masculinas, mais femininas. Todas muito lentas. Só eu tinha muita pressa. Pressa e a sensação de me alcançar e me perder ininterruptamente. E virava a esquina para chegar na mesma calçada. Duas, três, dez vezes.

Sonho? Inferno?

O Advogado (Eduardo Mossri) e Agnes (Djin Sganzerla) prestes a se casar; ela quer experimentar a vida conjugal. (Foto: Felipe Stucchi)

O Advogado (Eduardo Mossri) e Agnes (Djin Sganzerla) prestes a se casar; ela quer experimentar a vida conjugal. (Foto: Felipe Stucchi)

Talvez, para o dramaturgo sueco August Strindberg (1949-1912), meu relato não seria um desatino. Ele sempre esteve muito próximo desses tênues limites entre o que banalmente chamamos de “normalidade” e “loucura”, “realidade” e “sonho”, “lampejo” e “surto”. Escreveu, entre 1896 e 1897, quando vivia em Paris, Inferno, uma de suas obras mais importantes, misto de ensaio autobiográfico e ficção. Publicado em 1898, o livro trata do período em que o dramaturgo viveu em Paris, imerso num questionamento angustiado e angustiante do mundo e dedicado a desvendar os segredos ocultos da existência por meio da alquimia e outros experimentos.

Em 1901, finalizou a peça O Sonho, cuja forma se assemelha às narrativas oníricas, com saltos temporais, personagens aparentemente incongruentes e mudanças bruscas de ambiente. Inês, filha do deus Indra, desce ao mundo a fim de vivenciar a experiência humana, do casamento à separação e da espera incessante ao eterno recomeço. Durante sua passagem pela Terra, conhece diversos personagens e, com eles, prova situações de desencanto e sofrimento. Continue lendo

Início de ano vigoroso nos palcos paulistanos

A temporada teatral de 2014 começou com estreias e reestreias importantes. Como ainda não havia retomado o Jogo de Cena, não tive oportunidade de escrever sobre algumas peças excelentes que passaram pela cidade e já saíram de cartaz. Por isso, destaco aqui, rapidamente, quatro espetáculos encantadores que preencheram os palcos paulistanos de vigor cênico:

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de "Conselho de Classe", da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de “Conselho de Classe”, da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Conselho de Classe

Na reunião de professores de uma escola pública carioca, conflitos internos e dissabores com o sistema educacional vêm à tona. O diretor substituto, recém-chegado, tenta apaziguar os ânimos, mas acaba intensificando ainda mais o debate. Com um ótimo texto do dramaturgo Jô Bilac, a Cia. dos Atores comemora seus 25 anos encenando com sensibilidade o cotidiano dramático dos profissionais que lidam com a educação no Brasil. Há humor, há seriedade e há pleno domínio da cena por parte do elenco afinadíssimo – Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux, em atuações excepcionais – e da direção de Bel Garcia e Susana Ribeiro. O espetáculo está merecidamente indicado ao Prêmio Shell 2013 (RJ) em três categorias: direção, texto e cenário). A decisão, perspicaz e original, de escalar apenas atores para interpretar, em maioria, papéis femininos funcionou muito bem. Dilemas pessoais, jogos de poder e as artimanhas pela sobrevivência (emocional, moral e até física) pontuam o encontro dos professores e traçam um retrato honesto, cômico e trágico, mas também amargo, do Brasil de hoje.

 * A peça esteve em cartaz no Sesc Belenzinho. Continue lendo

Atores em cena de um dos segmentos do projeto teatral Puzzle, idealizado por Felipe Hirsch, que propõe uma apresentação literária do Brasil. (Foto: Divulgação)

Literatura e teatro em diálogo

Peço desculpas ao leitor desse blog pela ausência de resenhas críticas nas últimas semanas. Não faltaram espetáculos instigantes sobre os quais poderia ter escrito – destaco especialmente Medeia Vozes, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, 66 Minutos em Damasco, do libanês Lucien Bourjeily, e A Vida Crônica, de Eugenio Barba e seu Odin Teatret, que ainda ganharão alguns comentários meus, mesmo já tendo saído de cartaz. Contudo, resolvi me dar um período de pausa nas elucubrações jornalísticas para me dedicar a outras tarefas, mais urgentes naquele momento. A vida, esse fluxo contínuo de eventos, emoções e deslocamentos de tantas ordens que não poupa a pessoa – talvez resguarde em alguns momentos a persona –, sempre tem prioridade, não é mesmo? (Me recordo aqui da bela peça Vida, da curitibana Companhia Brasileira de Teatro, que trata justamente disso.)

O impulso que faltava para que eu retomasse o Jogo de Cena veio no domingo. Tinha planejado assistir aos três espetáculos do projeto Puzzle, concebido e criado pelo diretor e dramaturgo Felipe Hirsch para a Feira do Livro de Frankfurt deste ano, e só depois publicar uma resenha a respeito. Mas Puzzle C – o último segmento do projeto, o primeiro que vi – continua reverberante em mim. Sinto seus ecos lá e cá: retomei minhas estripulias literárias, comprei dois livros que andava namorando e cuja aquisição postergava (um do chileno Roberto Bolaño, outro da mexicana Valeria Luiselli), comecei a namorar outros dois livros, um do paulistano Juliano Garcia Pessanha e outro do gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, presentes no segmento C, e volta e meia me pego pensando em imagens que o espetáculo me despertou. Por isso, decidi partilhar algumas breves impressões antes de ver as outras duas peças. Continue lendo

Bruno Rudolf e Ziza Brisola acompanham a protagonista da peça, uma boneca manipulada. (Foto: Paulo Barbuto)

Uma morte repleta de vida

Na iminência da morte, presa a uma cama de hospital, Aparecida despede-se aos poucos de suas lembranças. Outrora uma grande trapezista circense, amante das viagens e dos riscos, hoje precisa aceitar as limitações que seu frágil corpo de 94 anos lhe impõe. Aparecida conta com a companhia de Renata, mulher solitária, de vida organizada e rotineira, que conta histórias aos pacientes do hospital. Renata vive com seu cão Sig e mantém – por meio da troca de cartões postais –um tênue contato com a mãe, que a abandonou na adolescência e hoje vive em Bali.

A amizade e as surpreendentes revelações que surgem do encontro entre essas duas mulheres conduzem a narrativa do espetáculo Memória Roubada, que reúne o australiano Mark Bromilow, que foi diretor artístico do Cirque du Soleil entre 2008 e 2010, e os atores das companhias Linhas Aéreas (Bel Mucci, Natalia Presser e Ziza Brisola) e Solas de Vento (Bruno Rudolf e Ricardo Rodrigues). A ideia da peça surgiu em 2011. Bromilow, que já havia visitado o Brasil várias vezes e conhecia vários profissionais do meio artístico, sugeriu uma parceria aos intérpretes daquelas companhias. As reflexões advindas com a morte de sua mãe foram o ponto de partida para a construção da dramaturgia. Enquanto ela esteve internada, Bromilow permaneceu a seu lado. Observou como todos ali se ocupavam do corpo, do bem-estar físico de sua mãe, enquanto ela mesma parecia estar voltada tão-somente para o espírito. Pairava sobre eles a sensação de que a partida era inevitável. Continue lendo

A vida como ela é

Nas últimas semanas, viajei a dois países pelos quais sou apaixonada (e nos quais já estive, por mais de uma vez, em longas jornadas repletas de aprendizados): México e Turquia. Mas não precisei enfrentar salas de embarque, pegar avião ou usar passaporte. Tanto no cinema quanto no teatro, tive a sorte de me deparar com duas obras que conseguiram captar, muito além da superfície, um flagrante tanto do estado das coisas quanto do estado de espírito de seus cidadãos, um recorte preciso e profundo dos temas que permeiam a atualidade dos dois países.

* Cena do longa existencialista "Era Uma Vez na Anatólia": onde a antiga e a nova Turquia se encontram.

Era Uma Vez na Anatólia (2011), do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, traz um uma pequena comitiva formada por policiais, militares, um promotor, um médico e os dois suspeitos de um crime em busca do corpo de um homem assassinado. Durante uma noite que parece eterna, em três carros, eles percorrem os campos da Anatólia, nas entranhas da Turquia, à procura do lugar exato em que o cadáver foi enterrado. A escuridão oculta os detalhes da paisagem, dificultando a tarefa. Além disso, um dos acusados alega que estava bêbado quando tudo aconteceu, por isso não tem certeza da localização do corpo.

A banalidade da trama é apenas aparente; seus pequenos desdobramentos são extremamente reveladores, e as breves interações entre os personagens se mostram significativas e permeadas por reflexões existenciais. Os cadáveres – metafóricos e reais – precisam ser enterrados com decência, só assim a história pode avançar. A cena da autópsia sintetiza o dilema que perpassa todo o filme: a Turquia ancestral, das tradições, superstições e povoados agrícolas, convive com a Turquia de traços e modos contemporâneos, que pleiteia um lugar de importância no mundo. Mas não sem fricção, e nem sempre com explicações lógicas. Belos planos, interpretações vigorosas. Do mesmo diretor, também gosto muito de Usak (2002). Continue lendo

Uma mulher e seus muitos mundos


**Ana Madureira em seu solo "CabraCega" (crédito de Diogo Bento).

Na brincadeira de cabra-cega, o participante de olhos vendados ganha o jogo se consegue tocar ou agarrar uma outra pessoa. Para isso, guia-se pela audição e tateia o mundo ao seu redor em busca da presença física de alguém. Qualquer pequeno movimento o coloca em estado de alerta. Em geral, o espaço físico é delimitado, dificultando a fuga ou o esconderijos dos demais participantes. Afinal, a graça está justamente no perigo iminente de ser pego pelo indivíduo com uma venda nos olhos.

No delicado espetáculo CabraCega, da atriz portuguesa Ana Madureira, vemos uma mulher que, embora sem vendas visíveis durante boa parte do tempo, escuta e tateia o universo em que se encontra. Entendemos que ela não se encontra no mesmo “presente cronológico” que nós, seus espectadores. Seu tempo é outro. A cena inicial é simbólica: presa numa escuridão muito particular, seguindo seus instintos de sobrevivência, ela se redescobre viva e dona de um corpo. Quem é ela? Não sabemos; talvez nem ela mesma saiba com exatidão.

Ana Madureira desenvolveu esse espetáculo como convidada da Cia. Circolando. Com sede na cidade do Porto, a companhia apresenta suas criações como “um teatro dançado que habita as paisagens do sonho, um teatro próximo da poesia, que traz histórias libertas de toda a lógica narrativa”. E completa: “histórias que não pretendem oferecer um sentido, mas despertar todos os sentidos… com imagens, músicas, cheiros, emoções…”. Imagino que, como se trata de uma linha de investigação, algumas performances sejam mais bem-sucedidas que outras, tenham maior ou menor apelo junto ao público e que resultem mais ou menos experimentais. Assim, a companhia parece acolher espetáculos que não se guiem por uma unidade dramática clássica, mas que explorem outras possibilidades cênicas, pautadas pelos sentidos (como sensações) construindo um sentido (como significado).

CabraCega não tem um texto falado, embora a personagem diga certas frases – bastante significativas, aliás – em um ou outro momento. Portanto, não se trata de um monólogo. Aproxima-se muito da performance e do teatro gestual, em que os movimentos e os gestos são os motores da narrativa e contam a história. Nenhum deslocamento é ao acaso; a partitura corporal deve ser muito limpa e precisa, carregada de intenções claras (leia a sequência de posts O Gesto Essencial). A atuação de Ana tem plasticidade e fluidez; percebemos claramente a alternância de estados que rege a personagem, como se ela passeasse por suas sombras e claridades, encontrando instantes de luz e lucidez e outros de profunda inconsciência. Dentro de si, toca o amor, toca a selvageria, toca o medo, a frustração e o desejo. Aquela mulher que emerge em cena é, na verdade, várias mulheres. Ou várias fêmeas, ou vários femininos talvez. Tem um lado profundamente primitivo, quase Lilith – como uma aranha em eterna tessitura de sua teia ou uma serpente rastejante. Tem também uma face romântica, repleta de frescor e picardia, com uma leveza esfuziante: será ela Maria, ou Psiqué, ou Julieta?

A personagem brinca de cabra-cega consigo mesma. Roça suas memórias, resvala em suas latências, projeta futuros que talvez não vinguem. Tenta agarrar alguma persona mais definida, mas só desfia novelos que brotam dentro de si mesma. O cenário sugere ambientes diversos, concretos ou simbólicos: um tapete de grama, uma porta antiga, um varal de roupas. A trilha sonora joga um papel importante, ressaltando estados anímicos e ajudando a criar atmosferas.

O espetáculo me recordou vagamente os filmes do espanhol Julio Medem, em particular de Caótica Ana (2007), cuja protagonista carrega em si traços e histórias de muitas mulheres, míticas ou reais. Lembranças próprias ou alheias se misturam no espaço e no tempo, fazendo de Ana uma figura errante em sentido literal e metafórico. Ela é ela, ela é outra, são muitas Anas, quase infinitas. De todas as películas de Medem a que assisti, esta é a de que menos gosto. Acho irregular e por vezes confusa. Mas aprecio o modo com que o cineasta filma suas personagens femininas, principalmente nos ótimos longas Os Amantes do Círculo Polar (1998) e Lucia e o sexo (2001). São figuras vigorosas e sensuais, cientes de seu poder e de sua fragilidade e muito abertas a descobertas e riscos. A personagem que Ana Madureira põe em cena tem muito da vivacidade e da beleza das mulheres criadas por Medem e igualmente se lança numa busca existencial profunda.

“Estás aí? Estás? Onde?” – olhos vendados, mãos estendidas. “Quem és?”

A resposta nunca é definitiva.

O gesto essencial: artesanato da impermanência (2)

HAMLET, The Wooster Group

A companhia performática, sediada em Nova York e dirigida por Elizabeth LeCompte, trouxe um espetáculo mais cerebral e estético e, talvez por isso, suas quase três horas tenham parecido mais cansativas que as do pansori da vocalista Ja-Ram Lee e dos músicos Hyuck-Joe Jang, Hyang-Ha Lee e Hong-Sik Kim (leia post anterior). Contribuiu para essa sensação a cadência do texto, num inglês rimado e ritmado, não muito fácil de acompanhar numa sessão noturna, depois de um dia de trabalho. Mas a apresentação veio carregada de frescor. E, de novo, ali estava o gesto como motor da narrativa, numa abordagem bastante diferente.

The Wooster Group

Cena de "Hamlet", espetáculo que a companhia The Wooster Group, sediada em Nova York, trouxe para São Paulo. (Crédito: Mihaela Marin))

Não sei se todo aparato tecnológico usado por The Wooster Group – projeções de vídeo, brincadeiras sonoras e outros efeitos de mídia eletrônica – se faz sempre tão necessário, mas integra a proposta experimental do grupo, que se baseia na desconstrução de um texto para sua posterior reconstrução, com uma outra leitura, nada reverente ou engessada, ativando novos sentidos e novas possibilidades cênicas. Os espetáculos da companhia em geral têm esse caráter híbrido, de mistura de teatro com instalação. Parecem processos não finalizados de pesquisa – o que, ao menos para mim, caiu muito bem – nos quais podemos identificar alguns mecanismos intrínsecos ao fazer teatral: a marcação de cena, o estudo de movimento, o uso do espaço etc.

Em Hamlet, o grupo parte de um filme feito com base no registro ao vivo de uma montagem teatral do texto de Shakespeare, realizada em 1964 na Broadway. A produção de Richard Burton foi gravada por 17 câmeras no Lunt-Fontanne Theatre, com o público presente. O objetivo da empreitada era transformar a peça em longa-metragem e levar o teatro ao cinema. Pois bem: The Wooster Group usa, então, fragmentos desse filme para reviver o espetáculo teatral. Num telão, no palco, vemos cenas daquela montagem antológica. Os atores de agora revivem as marcações e os gestos daqueles artistas de 1964. Eles “repetem” o que foi feito só na aparência; usam o desenho cênico prévio, mas o preenchem com outras histórias – as deles, as nossas, as do hoje.

As imagens do telão pairam como sombra e memória sobre a encenação atual. Desafiam a efemeridade. Em muitos momentos, abstraí do texto (a sorte é que se tratava de uma peça canônica) e só me deixei levar pelo jogo ali estabelecido. Os gestos, ah, os gestos: imitados e recriados em tempo real, essenciais naquele agora, mas totalmente fugazes no tempo da história, da vida. E o que é o teatro senão um artesanato da impermanência?

The Wooster Group se apresentou no Sesc Pompeia durante duas semanas em março.