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Um olhar sobre o trágico

*Malu Galli como Clitemnestra e Daniela Fortes como Cassandra (crédito: Guga Melgar).

PRÓLOGO

Quando assisti à peça Ifigênia, com a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, no ano passado e lá em seu espaço na Bela Vista, ganhei um número da revista Sobe?, editada pela companhia. A publicação trazia, além do texto na íntegra do dramaturgo Cássio Pires (que se baseou no clássico Ifigênia em Áulis, de Eurípedes), transcrições de três encontros sobre a tragédia grega, realizados como etapa de pesquisa. Cássio participou do primeiro deles, cujo tema era “O trágico e sua dramaturgia”.

Indagado sobre as possibilidades do trágico hoje em dia, começou sua reflexão com uma ressalva: “Não fazemos mais tragédia grega há muito tempo”, disse. Lembrou que as tragédias eram apresentadas num festival anual em cidades como Atenas, às quais um número expressivo de indivíduos se dirigiam. Havia um evidente caráter religioso e o sentido de pertencimento à coletividade.”Quando as pessoas chegavam à arena, assistiam a peças apresentadas como trilogias. Era uma jornada teatral longa, de muitas horas, feita à luz do dia, com o altar de Dionísio dentro do palco, a fim de celebrar algo que eles chamavam de metrón, o ‘não ultrapassar uma medida’”, afirmou Cássio. “A descrição desse cenário deixa algo claro: 2500 anos depois, dá para falar que essa tragédia ficou lá atrás, como forma ritual, prática social e como projeto político”.

*Malu como Electra, Julio Machado como Orestes e Luciano Chirolli como Corifeu (crédito: Guga Melgar).

ORÉSTIA

Fiz esse breve prólogo, porque acredito que todos aqueles que se envolvem com adaptações das formidáveis tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes sabem do desafio que os espera. A dimensão do trágico mudou ao longo dos séculos, o próprio conceito foi ressignificado. A voz coletiva, expressa nos coros das tragédias gregas, deu lugar à busca por um protagonismo exacerbado na atualidade. As plateias do século 21 muitas vezes preferem consumir a comungar, optam pela passividade e não pela participação. Assim, o aspecto ritualístico se enfraqueceu. Mas mitos são mitos – seu simbolismo é atemporal, atravessa gerações sem envelhecer. Que o diga a genial trilogia de Ésquilo, representada pela primeira vez em 458 a.C. e composta pelas tragédias Agamêmnon, As Coéforas e Eumênides, que tratam da maldição que paira sobre a casa dos Átridas.

A atriz e diretora Malu Galli concebeu e realizou uma montagem que valorizou o coro, o canto e o corpo. No elenco de “sua” Oréstia, há seis atores – ela mesma, Daniela Fortes, Gisele Fróes, Julio Machado, Luciano Chirolli e Otto Jr. – além de Joana Guimarães, que opera o som em cena e também participa do coro. Transformar três tragédias numa peça de 70 minutos não é tarefa fácil; os filósofos e professores Alexandre Costa e Patrick Pessoa traduziram os textos, e Patrick cuidou da adaptação e da dramaturgia. Como fio condutor, optaram por ressaltar o ciclo de vingança que se perpetua entre os descendentes de Atreu: o rei Agamêmnon sacrifica a própria filha, Ifigênia, para que a deusa Artêmis sopre os bons ventos que levarão o exército grego a Troia. Indignada, Clitemnestra, esposa do rei, trama matá-lo quando retorne da guerra, apoiada por seu amante Egisto, primo de Agamêmnon. Para vingar a morte do pai, Electra incentiva o irmão Orestes a matar a própria mãe – e isso desperta a ira das Fúrias, entidades arcaicas que recriminam o assassinato entre pessoas do mesmo sangue. O deus Apolo, porém, protege Orestes. E o orienta a levar seu caso à deusa Atená,  que instaura um júri de 12 homens para deliberar sobre o caso.

A FORÇA DO CORO

Gostei da encenação proposta por Malu Galli. O coro ocupa a parte superior do cenário simples, mas eficiente. As sete vozes são potencializadas pelo uso de microfones; não os vejo como uma “interferência contemporânea”, mas sim como um recurso que torna eficaz o efeito de “expressão coletiva” (por isso, só faço uma ressalva ao uso de microfones na cena final, pelos deuses, já que havia se convencionado que eram apoio para o coro; além disso, a referida cena ficou com jeito de programa de auditório, imprimindo um tom de deboche que não caiu bem, na minha opinião). As músicas cantadas pelo coro foram compostas por Rômulo Fróes e Cacá Machado.

Embora a tragédia se apóie num texto límpido, seco e formalmente bem construído, exigindo boa dicção dos intérpretes, o corpo também é narrativo e se revela fundamental nesse gênero. Registro meus aplausos para Dani Lima, responsável pela orientação corporal. Há cenas belas, coreografadas, especialmente aquelas que contam com a participação da atriz Daniela Fortes, que faz Ifigênia e também Cassandra. O sacrifício da filha de Agamêmnon, por exemplo, é dançado e resulta numa imagem poética e pungente. Julio Machado (Agamêmnon/ Orestes) e Malu Galli (Clitemnestra/ Electra) também têm momentos de grande expressividade.

O espetáculo não se mostra pretensioso – por isso, suas poucas limitações são perfeitamente toleráveis. Nada no cenário, na luz ou na trilha sonora quer concorrer com o texto, o verdadeiro esteio da peça. As engrenagens cênicas estão à mostra (até o computador pode ser visto). Os atores assumiram uma interpretação-coral, em que nenhum brilha mais que o outro. Assim, o espírito da tragédia grega original se faz presente justamente aí, na importância e na força desse coro – não só o literal, mas também o simbólico, sobretudo.

No original, o julgamento de Orestes terminava em 6 votos a favor de sua condenação e outros 6 a favor da absolvição. Atená dava seu voto de desempate. Na montagem dirigida por Malu, a cada apresentação a plateia exprime seu veredicto, mesmo sabendo que isso não mudará aquele resultado primeiro. Mas levamos para casa a reflexão sobre como enxergamos a justiça e a vingança nos dias de hoje. Quando assisti à peça, Orestes foi absolvido por sete votos a cinco.

E assim caminha a humanidade.

* O coro, expressão da voz coletiva, elemento fundamental das tragédias (crédito: Guga Melgar).

Até 26/5, sex. e sáb. 21h e dom. 18h30. Teatro Augusta: R. Augusta, 943, tel. 3151-4141. Gênero: Drama. Duração: 70 min. Classificação: 12 anos. Ingressos: R$ 50. Crédito e débito: Master e Visa. Onde comprar: na bilheteria (qua. a sáb. 14h/21h e dom. 14h/19h) ou, com taxa, pelo tel. 4003-1212 ou pelo site  www.ingressorapido.com.br