Olhares para o palco

A atriz Maristela Chelala em cena de "A Casa de Orates", do Grupo Tapa. (Foto: Claudinei Nakasone)

A atriz Maristela Chelala em cena de “A Casa de Orates”, do Grupo Tapa. (Foto: Claudinei Nakasone)

O Jogo de Cena está de volta! Entre as novidades, apresento um parceiro do blog: o ator e fotógrafo Claudinei Nakasone, que me acompanhará em várias das estreias teatrais. Fotógrafo profissional há 20 anos, Claudinei é graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e mestre em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atua nas áreas de publicidade, gastronomia, artes, produtos, teatro e natureza e faz retratos de atores e atrizes. Atualmente leciona a disciplina Fotografia Publicitária, na Fundação Cásper Líbero para as turmas de Publicidade e Propaganda e na Pós-Graduação do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.

Abaixo, uma pequena mostra do belo trabalho de Claudinei. Ele tem fotografado as produções do Grupo Tapa, além de participar de grupos de estudos ligados à companhia. As imagens do cabeçalho do blog também são de autoria do fotógrafo.

Se quiser entrar em contato com Claudinei, escreva para naksone@uol.com.br.

Início de ano vigoroso nos palcos paulistanos

A temporada teatral de 2014 começou com estreias e reestreias importantes. Como ainda não havia retomado o Jogo de Cena, não tive oportunidade de escrever sobre algumas peças excelentes que passaram pela cidade e já saíram de cartaz. Por isso, destaco aqui, rapidamente, quatro espetáculos encantadores que preencheram os palcos paulistanos de vigor cênico:

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de "Conselho de Classe", da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Ótimos atores, direção segura e um texto ágil e inteligente fazem de “Conselho de Classe”, da Cia. dos Atores, um espetáculo excelente. (Foto: Dalton Valério).

Conselho de Classe

Na reunião de professores de uma escola pública carioca, conflitos internos e dissabores com o sistema educacional vêm à tona. O diretor substituto, recém-chegado, tenta apaziguar os ânimos, mas acaba intensificando ainda mais o debate. Com um ótimo texto do dramaturgo Jô Bilac, a Cia. dos Atores comemora seus 25 anos encenando com sensibilidade o cotidiano dramático dos profissionais que lidam com a educação no Brasil. Há humor, há seriedade e há pleno domínio da cena por parte do elenco afinadíssimo – Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux, em atuações excepcionais – e da direção de Bel Garcia e Susana Ribeiro. O espetáculo está merecidamente indicado ao Prêmio Shell 2013 (RJ) em três categorias: direção, texto e cenário). A decisão, perspicaz e original, de escalar apenas atores para interpretar, em maioria, papéis femininos funcionou muito bem. Dilemas pessoais, jogos de poder e as artimanhas pela sobrevivência (emocional, moral e até física) pontuam o encontro dos professores e traçam um retrato honesto, cômico e trágico, mas também amargo, do Brasil de hoje.

 * A peça esteve em cartaz no Sesc Belenzinho. Continue lendo

Figuras infernais

“O inferno de Sartre toma o drama de assalto para defender uma concepção filosófica. O inferno de Beckett é o próprio drama, meditado passo a passo, sofrido em sua contemporânea agonia, em sua incerta e ainda obscura ressurgência.”

Claudia Maria de Vasconcellos, Figuras Infernais no Teatro de Samuel Beckett

O que vem por aí

“Nós Somos Semelhantes A Esses Sapos...”, peça da companhia francesa Les Mains, les Pieds et la Tête Aussi.

“Nós Somos Semelhantes A Esses Sapos…”, peça da companhia francesa Les Mains, les Pieds et la Tête Aussi (Foto: Divulgação).

A temporada teatral de 2014 começou com várias promessas. Uma das mais estimulantes delas é a realização da 1ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro da cidade de São Paulo, , logo no primeiro trimestre, sob a coordenação de Antonio Araujo, diretor do Teatro da Vertigem, e de Guilherme Marques, diretor geral do CIT-Ecum – Centro Internacional de Teatro Ecum. Entre 8 e 16 de março, onze prestigiosas peças serão apresentadas na capital: Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, do diretor e dramaturgo Romeo Castellucci, da Socìetas Raffaello Sanzio (Itália); Cineastas, escrita e dirigida por Mariano Pensotti (Argentina); Gólgota Picnic, de Rodrigo García e sua companhia La Carnicería Teatro (Espanha); Hamlet, de Oskaras Koršunovas (Lituânia); Ali e Nós Somos Semelhantes a esses Sapos, da companhia Les Mains, les Pieds et la Tête Aussi (França); Ubu e a Comissão da Verdade, de William Kentridge com a Handspring Puppet Company (África do Sul); Eu Não Sou Bonita, de Angélica Liddell e sua companhia Atra Bilis Teatro (Espanha); e Anti-Prometheus, de  Sahika Tekand e Studio Oyuncuları (Turquia); Escola, de Guillermo Calderón (Chile); Bem-vindo a Casa, de Roberto Suarez e o Pequeño Teatro de Morondanga (Uruguai) e De Repente, Fica tudo Preto de Gente, do brasileiro Marcello Evellin (Brasil). Saiba mais no site do #MITsp.

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Cena de “Hamlet”, espetáculo do lituano Oskaras Koršunovas que compõe a programação do MITsp (Foto: Divulgação).

Claudinei Nakasone

Os melhores de 2013, segundo o JOGO DE CENA

Foto: Claudinei Nakasone

Como de hábito, quando o ano acaba, costumamos avaliar o que foi realizado ao longo dos meses vividos. Na imprensa, não é diferente; pipocam listas de “os melhores” disso e daquilo e retrospectivas diversas. O blog Jogo de Cena estreou em 2013 e, mesmo com as mudanças de plataforma e endereço e com meus silêncios esporádicos, consolidou-se como mais um espaço de reflexão sobre o teatro e seus pontos de diálogo com o mundo. Ainda há muito o que aprimorar, reconheço, mas afirmo com satisfação que aprendi muito com esse exercício crítico e apreciei a possibilidade de interlocução com criadores e leitores em geral.

Assisti a mais de 160 espetáculos teatrais – e devo dizer que alguns me arrebataram; outros me surpreenderam positivamente com suas propostas ousadas e/ou autorais; muitos me pareceram interessantes e tantos, apenas corretos; e obviamente houve aqueles que me frustraram ou aborreceram (em um ou outro caso, as duas situações ao mesmo tempo). Não acho que o teatro tenha morrido; talvez certas formas de fazer teatro atualmente tenham se tornado obsoletas ou esvaziadas. Também o público vem adquirindo outras exigências e expectativas em relação ao que vê no palco, na arena ou nas ruas (reflexo natural do caminhar da sociedade… ). Aliás, não creio que exista apenas um público, como uma entidade homogênea e impassível, que paira acima do bem e do mal; existem públicos – dos mais adestrados aos mais contestadores. Por isso, na minha opinião, o teatro continuará vivo enquanto houver gente apaixonada e comprometida, que se delicia em estar em cena e se inspira nos clássicos e nos mestres tanto quanto desobedece certas regras e convenções para ir adiante. O teatro continuará vivo enquanto houver diálogo, um diálogo pulsante e rico, entre os artistas e os espectadores, entre a criação coletiva e o mundo.

Divagações à parte, apresento a seguir uma lista bastante pessoal com os destaques de 2013. A ordem é aleatória; divido entre brasileiras e estrangeiras e não incluo reestreias (mesmo que eu tenha visto a peça apenas em segunda temporada): Continue lendo

A temporada em imagens

Algumas das peças que estiveram em cartaz em São Paulo ao longo de 2013.

A peça Pedro e o Capitão, com os atores Kiko Vianello (esq.) e Fernando Bello, dirigida por Marcos Loureiro, lida com feridas da recente história latino-americana. (Foto: Alexandre Catan)

Resistir é preciso: tortura nunca mais

Uma sala de interrogatórios, provavelmente instalada em algum imóvel de fachada discreta, resguardado por servidores do regime. Ali, a luz exterior mal entra. Ecoam ruídos diversos – do ranger de portas e passos duros a gritos e gemidos – que vêm dos cômodos e corredores vizinhos. Naquele ambiente sufocante e lúgubre, o torturado troca nacos de vida pela manutenção de sua dignidade; ele se nega a dedurar os companheiros. O torturador, curiosamente comovido pela integridade moral do rapaz alquebrado e cruelmente machucado, enfrenta uma crise de consciência: carrasco, ele? Engana-se: seu instrumento de persuasão é a palavra, não os choques nem os métodos violentos e desatinados dos “homens elétricos”.

Histórias assim ainda permanecem escondidas em porões que, mesmo depois do fim oficial dos regimes ditatoriais latino-americanos, são mantidos lacrados e interditados. Quantos Pedros morreram em tais porões – no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai… Quantos capitães saíram ilesos, protegidos por leis de anistia e outros arranjos feitos às pressas. Alguns desses, contudo, sucumbiram – à crise de consciência ou à justiça. Talvez a ambas. Continue lendo

Atores em cena de um dos segmentos do projeto teatral Puzzle, idealizado por Felipe Hirsch, que propõe uma apresentação literária do Brasil. (Foto: Divulgação)

Literatura e teatro em diálogo

Peço desculpas ao leitor desse blog pela ausência de resenhas críticas nas últimas semanas. Não faltaram espetáculos instigantes sobre os quais poderia ter escrito – destaco especialmente Medeia Vozes, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, 66 Minutos em Damasco, do libanês Lucien Bourjeily, e A Vida Crônica, de Eugenio Barba e seu Odin Teatret, que ainda ganharão alguns comentários meus, mesmo já tendo saído de cartaz. Contudo, resolvi me dar um período de pausa nas elucubrações jornalísticas para me dedicar a outras tarefas, mais urgentes naquele momento. A vida, esse fluxo contínuo de eventos, emoções e deslocamentos de tantas ordens que não poupa a pessoa – talvez resguarde em alguns momentos a persona –, sempre tem prioridade, não é mesmo? (Me recordo aqui da bela peça Vida, da curitibana Companhia Brasileira de Teatro, que trata justamente disso.)

O impulso que faltava para que eu retomasse o Jogo de Cena veio no domingo. Tinha planejado assistir aos três espetáculos do projeto Puzzle, concebido e criado pelo diretor e dramaturgo Felipe Hirsch para a Feira do Livro de Frankfurt deste ano, e só depois publicar uma resenha a respeito. Mas Puzzle C – o último segmento do projeto, o primeiro que vi – continua reverberante em mim. Sinto seus ecos lá e cá: retomei minhas estripulias literárias, comprei dois livros que andava namorando e cuja aquisição postergava (um do chileno Roberto Bolaño, outro da mexicana Valeria Luiselli), comecei a namorar outros dois livros, um do paulistano Juliano Garcia Pessanha e outro do gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, presentes no segmento C, e volta e meia me pego pensando em imagens que o espetáculo me despertou. Por isso, decidi partilhar algumas breves impressões antes de ver as outras duas peças. Continue lendo

O diretor libanês Bourjeily acredita num teatro de imersão, que seja realizado fora dos palcos e faça do público o protagonista da história. (Foto: Divulgação)

O teatro incendiário que vem do Líbano

Um grupo de oito turistas em visita a Damasco, capital da Síria, são subitamente sequestrados pelo serviço secreto do regime de Bashar al-Assad. Levados para alguma prisão clandestina, situada no porão de um edifício qualquer da cidade, passam por momentos de tensão. A atmosfera não é amistosa; a princípio sem entender muito – afinal, os “soldados” conversam entre si em árabe ou inglês –, os turistas aos poucos percebem que estão cercados por uma rede de intrigas alimentada por um governo ditatorial. Poderia até ser mais uma notícia relacionada ao sangrento conflito na Síria, que já matou mais de 100 mil pessoas – segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) – desde 2011, quando começou o levante contra o presidente Assad. Mas trata-se do enredo de 66 Minutos em Damasco, espetáculo do libanês Lucien Bourjeily, que nesta quinta-feira (31/10) abre a 1ª Bienal de Teatro da USP, dedicada às “realidades incendiárias”.

O ator, diretor teatral, cineasta e ativista social Lucien Bourjeily vem mesmo de uma realidade incendiária – Oriente Médio – e aposta numa estética teatral igualmente instigante, uma “improvisação interativa site-specific intensiva de imersão”, como define. Tem posições políticas bastante firmes, e não acredita numa arte “diplomática”, que faça concessões. Para ele, a liberdade de expressão é um direito fundamental do ser humano que não pode ser tolhido por governos, líderes religiosos ou grupos econômicos. Bourjeily afirma que a verdadeira revolução na Síria se deu quando a população venceu a barreira do medo e foi às ruas contra o regime. Recorda o caso emblemático de um grupo de jovens da cidade de Daraa que usou o grafite para criticar o governo de Assad. Foram detidos e torturados. “A cidade inteira pediu a libertação dos garotos. Eles retornaram mutilados e machucados, e isso expôs os métodos do regime.  A comunidade, então, voltou a protestar com mais confiança”, diz o diretor. Continue lendo