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Estamos ou não estamos à venda?

Ernani Sanchez, Luís Mármora e Pedro Felício em "Quanto Custa?", montagem com dois textos inéditos de Bertold Brecht. (Foto: Ding Musa)

Ernani Sanchez, Luís Mármora e Pedro Felício em “Quanto Custa?”, montagem com dois textos inéditos de Bertold Brecht. (Foto: Ding Musa)

“Não citarás o nome de Bertold Brecht em vão”: este deveria ser um mandamento respeitadíssimo entre todos aqueles que trabalham com as artes cênicas. O grande encenador e dramaturgo alemão (1898-1956) se tornou desculpa ou justificativa para peças, textos e procedimentos que não têm nada a ver com ele. Assim como a figura de Che Guevara, assimilada pela sociedade de consumo e regurgitada sob a forma de ícone pop, esvaziado de ideologias, para uso imediato em camisetas e adesivos, Brecht tem se tornado uma espécie de manto protetor, invocado a torto e a direito para blindar encenações equivocadas ou incoerentes. De uns tempos para cá, na areia movediça do universo pós-dramático e numa sociedade cada vez mais voltada para a pasteurização das propostas e para o mercado (que faz do espectador cliente e confunde cultura com entretenimento), muitos justificam suas escolhas atribuindo-as ao “distanciamento brechtiano”, ao “épico brechtiano” ou à “dialética brechtiana”. Em muitos casos, porém, o que menos se vê é a essência de Brecht ou um verdadeiro espírito brechtiano a orientar a montagem, tanto em conteúdo quanto em forma.

Desabafos à parte, um legítimo texto de Bertold Brecht é sempre bem-vindo. No caso da peça Quanto Custa?, dirigida por Pedro Granato e que felizmente não se encaixa nas descrições do parágrafo acima, trata-se da combinação de dois textos curtos do dramaturgo alemão, escritos em 1939: Quanto Custa seu Ferro? e Dansen. Ambos foram criados no calor do avanço nazista e do início da Segunda Guerra Mundial, enquanto Brecht estava exilado na Dinamarca e na Suécia, e são bastante similares. No primeiro deles, o vendedor de ferro Svenson se mantém alheio ao gradativo desaparecimento de seus vizinhos; evita assumir qualquer posição a fim de manter o patamar de suas vendas e preservar seus clientes, especialmente um misterioso e assíduo comprador. No segundo texto, o criador de porcos e açougueiro Dansen afirma sua crença nos contratos como mantenedores da atmosfera pacífica entre os vizinhos. Ele divide a rua com outros dois comerciantes, além de seu amigo ferreiro Svenson. Quando um estranho, que passa a circular pelas redondezas, lhe propõe um contrato, Dansen logo aceita a fim de sentir-se protegido – até ver seus vizinhos serem mortos e os negócios deles tomados pelo misterioso homem.

Na peça dirigida por Granato, três comerciantes convivem harmoniosamente: Dansen, Svenson e a senhora Norsen, uma jornaleira. Por lá passa também Austin, o vendedor de tabacos. Um estranho começa a rondar os estabelecimentos, propondo contratos “de proteção” e, para a alegria de Svenson, torna-se um comprador das barras de ferro. Ocorre o primeiro assassinato. Um clima de insegurança toma a rua – e mais barras de ferro são vendidas: para os amedrontados comerciantes e igualmente para o forasteiro. Em seguida, outro assassinato. Desconfianças vêm à tona; tanto Dansen quanto Svenson se sentem em perigo. Mas o primeiro decide assinar o contrato com o estranho, crente de que assim não será atacado; o segundo hesita em tomar alguma atitude, uma vez que o tal homem misterioso lhe alimenta a caixa registradora, adquirindo barras de ferro com uma frequência cada vez maior.

>> Uma certa relutância

Antes de enveredar pelas várias reflexões que a peça desperta, queria fazer alguns comentários específicos sobre a montagem. Ao final, fiquei com a sensação de que faltou algo – uma certa densidade, talvez? Aqui não me refiro à necessidade de “psicologismo” para os personagens, nada disso. Os atores, aliás, estão muito bem: Luís Mármora como o açougueiro; Ernani Sanchez no papel do ferreiro e Pedro Felício desdobrando-se em Austin, a senhora Norsen e o homem misterioso. A narração em off e a trilha sonora ressaltam o aspecto fabular, e isso igualmente funciona bem. Gosto dos figurinos e da luz, contudo o cenário – bem-feito, por sinal – não me convenceu. Nem as marcações dos atores no palco. Entendo que a caracterização do ambiente era necessária e que a rubrica de Brecht menciona a proximidade entre os vizinhos, no entanto os figurinos e certos objetos cênicos já falam por eles mesmos: o porco, as barras de ferro, os jornais, as cartas, a maleta do forasteiro… Por que não dar mais valor à relação ator-objeto? Senti que os intérpretes ficaram muito presos a seus “espaços”, que, embora bem desenhados, pouco acrescentaram à trama. Também achei que a aparente mistura de gêneros e a tentativa de usar referências cinematográficas ficaram no meio do caminho. A peça não é tão séria nem tão cômica quanto poderia ser, nem tão tensa, nem tão surreal nem tão política… Daí minha impressão de “meio do caminho”. Paira uma certa relutância sobre a montagem. Pode ser que o estranhamento seja mesmo proposital; uma pena que isso tenha me incomodado.

Há também uma questão com o tempo. O espetáculo tem ritmo; porém, às vezes, a transição de uma cena para outra me pareceu demasiado apressada, como se faltasse uma curva mais bem desenhada de silêncio ou de suspensão antes de passar adiante. Isso deu uma impressão de linearidade, previsibilidade. Sei que Brecht joga com essa ideia no texto, mas igualmente faz parte do jogo da encenação usar nossas expectativas a favor da história que se conta. O espectador pode até sacar o que vai acontecer, mas espera ser surpreendido no como acontecerá. É possível que isso seja aperfeiçoado ao longo da temporada, conforme os atores forem se apropriando de seus personagens. Tomara.

O açougueiro, a jornaleira e o ferreiro: personagens de "Quanto Custa?", textos de Bertold Brecht com direção de Pedro Granato. (Foto: Ding Musa)

O açougueiro, a jornaleira e o ferreiro: personagens de “Quanto Custa?”, textos de Bertold Brecht com direção de Pedro Granato. (Foto: Ding Musa)

>> Indignação tem preço?

Apesar dos meus apontamentos, recomendo a peça – pelos atores e pela pertinência de seus temas. Durante todo o espetáculo, me lembrei do célebre poema do carioca Eduardo Alves da Costa (1936), que já foi equivocadamente atribuído a Brecht, No Caminho com Maiakóvski. Diz um trecho: “Na primeira noite, eles se aproximam/
e roubam uma flor
do nosso jardim./
E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem;/
pisam as flores,/
matam nosso cão,/ e não dizemos nada./
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,/
arranca-nos a voz da garganta./
E já não podemos dizer nada”.

Atribui-se ao pastor protestante Martin Niemöller (Alemanha, 1892–1984) uma pregação, feita na época do avanço nazista, que também vai mais ou menos pela mesma linha do poema de Alves da Costa. Eis uma das versões: “Quando os nazistas prenderam os comunistas, fiquei em silêncio; eu não era um comunista. Quando detiveram os social democratas, permaneci em silêncio; eu não era um social democrata. Quando foram atrás dos sindicatos, nada falei; eu não era sindicalista. Quando perseguiram os judeus, fiquei em silêncio; eu não era judeu. Quando vieram me buscar, não havia mais ninguém para protestar”.

Qualquer semelhança com nossa realidade atual não é mera coincidência – e aí está um dos méritos de Quanto Custa?: a pertinência do debate que a peça traz à tona. E com a peculiaridade de tocar justamente nos cernes capitalistas, tão caros à nossa sociedade contemporânea: o lucro, os contratos, o indivíduo transformado em mero consumidor/cliente, o individualismo do ‘salve-se quem puder’. Quanto custa nossa dignidade? Quanto custa nossa solidariedade? Qual o preço de nossa indignação, de nossa coragem? Estamos à venda?

A cadência dos acontecimentos narrados por Brecht – e não nos esqueçamos que ele era marxista – se assemelha ao poema e à pregação citadas acima: o vizinho foi assassinado e eu continuei vendendo meu produto – “sabe como é, a situação financeira, preciso garantir minha sobrevivência e…”; a vizinha também foi assassinada e eu, de novo, só me preocupei em vender meu produto – “não devo tomar partido ou assumir minha posição, posso perder clientes…”; mais um assassinato, desta vez bem próximo, e não sei o que fazer – “essa atmosfera de insegurança é abominável! melhor assinar um contrato de proteção individual e garantir minha vida e minhas vendas”; até que o assassino bate à minha porta – “socorro! por que ninguém me ouve?”.

Ser conivente é, sim, assumir uma posição favorável a um sistema opressor. Colocar-se à venda é, sim, um ato político e também totalmente favorável a um sistema opressor. A omissão compactua com a opressão. Quanto Custa? nos lembra disso a todo momento.

Até 4/10, qua. a sex. 20h (não haverá apresentação nos dias 18 e 25/9). Gênero: Suspense. Duração: 60 min. Classificação: 12 anos. Centro Cultural Banco do Brasil: R. Álvares Penteado, 112, Metrôs Sé e São Bento, tel. 3113-3651/ 3113-3652. Penteado, 112, Metrô Sé, tel. 3113-3651. Ingressos: R$ 6. Crédito: Mastercard e Visa. Débito: idem. Onde comprar: na bilheteria do CCBB (qua. a seg. 9h/21h), ou, com taxa, pelo site ingressorapido.com.br. Estacionamento conveniado: R. da Consolação, 228 (Edifício Zarvos) – R$ 15,00 pelo período de até cinco horas, com transporte de van grátis entrada do CCBB.