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A arte abraça a Cracolândia

Na tenda do Programa Braços Abertos, Edson apresenta seu rap aos companheiros, ao senador Eduardo Suplicy e aos artistas do projeto Luz Solar. (Foto: Priscila Machado)

Na tenda do Programa Braços Abertos, Edson apresenta seu rap aos companheiros, ao senador Eduardo Suplicy e aos artistas do projeto Luz Solar. (Foto: Priscila Machado)

Notas sobre o Programa Luz Solar

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão/ todo artista tem de ir aonde o povo está.”
(Bailes da Vida, Fernando Brant e Milton Nascimento)

Retornei ao Brasil no fim de fevereiro de 2012. Melhor seria dizer: retornei a São Paulo. Porque, desde 2008, quando saí em viagem pelo mundo por mais de nove meses ininterruptos, eu não voltava a São Paulo, ainda que nos anos seguintes houvesse pisado no chão dessa cidade nos intervalos de minhas andanças pelo país ou por terra estrangeira. Nesses períodos, porém, me sentia sempre de passagem pela megalópole; estava sem estar, sem me conectar com a realidade ao meu redor. Depois de ter vivido um ano e meio em Barcelona, aterrissei de fato em São Paulo, consciente de que era momento de reaprender a viver nessa cidade tão bruta quanto prolixa e restabelecer relações, caminhos e diálogos.

Poucos meses depois, comecei a trabalhar para a (agora extinta) revista Época São Paulo e uma de minhas primeiras resenhas foi para a peça Borboleta Azul, da Cia. Pessoal do Faroeste. Conversei longamente com o diretor Paulo Faria, por telefone, e fui assistir ao espetáculo na estreia, num dia de semana à noite. Era a primeira vez que ia à sede da companhia. Na saída do metrô, optei por seguir por toda a Rua do Triunfo. No caminho, cruzei com vários usuários de crack; alguns agitados, outros mais alheios, mas não fui importunada. Talvez nem tenham me notado, porém eu os notei; foi meu primeiro contato concreto com a Cracolândia.

Fui a outros ensaios e eventos na sede da cia. Pessoal do Faroeste. Acompanhei a batalha de Paulo Faria pela inauguração da Ocupação Cultural Amarelinho da Luz, no prédio vizinho à sede, situado diante do Largo General Osório, e pela realização do Ciclo de Olhares: Luz e Sombra, em parceria com o Sesc Bom Retiro, em 2013. Assisti também à intervenção artística realizada no fim do ano, diante da Estação Pinacoteca. Todas as vezes em que estive por lá não deixei de notar os usuários que circulam no entorno. Gente como a gente – só que para boa parte da população e do governo, invisíveis ou abominados. Continue lendo

“Precisamos humanizar o debate”

À frente da Cia. Pessoal do Faroeste, o diretor Paulo Faria realiza um trabalho de resistência ao criar espetáculos que dialoguem não só com a história da metrópole.

À frente da Cia. Pessoal do Faroeste, o diretor Paulo Faria realiza um trabalho de resistência ao criar espetáculos que dialoguem não só com a história da metrópole.

 

Paraense radicado em São Paulo há 23 anos, o dramaturgo, ator e diretor Paulo Faria revela-se apaixonado pela região da cidade que o acolheu. À frente da Cia. Pessoal do Faroeste, que completa este ano 15 anos de trajetória, realiza um trabalho de resistência ao criar espetáculos que dialoguem não só com a história da metrópole e do país mas também com o próprio espaço urbano. Um exemplo é a peça mais recente da companhia, Homem não Entra, em cartaz até 30/9, sempre às segundas às 20h, que, tem como contexto, o dia da promulgação do polêmico decreto governamental, que visava acabar com a chamada Zona Livre, área de prostituição no Bom Retiro. As prostitutas expulsas dali migraram para a região no entorno da Estação da Luz, que ficaria conhecida por nomes como Quadrilátero do Pecado, Boca do Lixo e, atualmente, Cracolândia.

“É tanta coisa que precisa ser levada aos palcos que não vemos sentido em fazer peças em que a cidade não esteja presente, principalmente onde estamos. A Rua do Triunfo tem uma das histórias mais fantásticas dessa cidade”, afirma. Recentemente, foi inaugurada a Ocupação Cultural Amarelinho da Luz, iniciativa que contou com a articulação e a curadoria de Paulo Faria. Dez coletivos artísticos, com propostas cênicas e audiovisuais em diálogo com a região da Luz, agora ocupam o edifício ao lado da sede da Cia. Pessoal do Faroeste e têm o compromisso de criar ações culturais que envolvam os moradores e a realidade local.

Na entrevista abaixo, Paulo fala sobre o projeto Ciclo de Olhares: Luz e Sombra e explica qual será a participação da Cia. Pessoal do Faroeste nas atividades do evento. Continue lendo

A praça é do povo!

* Cena de "Barafonda", da Cia. São Jorge de Variedades.

Há alguns textos poéticos ou em prosa que me remetem à adolescência, período de descobertas literárias e ímpetos revolucionários. Um deles é O Povo ao Poder, poema de Castro Alves, com o qual travei contato no primeiro ano do ensino médio, outrora chamado de colegial. Seus versos ecoavam dentro de mim, fazendo todo o sentido: “A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade/ Cria águias em seu calor”.

Anos se passaram, outros poemas e poetas me arrebataram, mas aqueles versos de Castro Alves continuam a soar tão contundentes. “A praça é do povo/ Como o céu é do condor.” Não consigo conceber uma cidade que não pertença a seus cidadãos e que, de um modo sutilmente cruel ou explicitamente excludente, lhes seja interdita. Tampouco acredito que a solução para o bem-estar coletivo passe pelo encasulamento individual, no qual tenhamos que viver sob a proteção de muros imensos e carros blindados. Ou por uma assepsia forçada e artificial do espaço urbano, baseada no embelezamento de fachada, na expulsão de “indesejáveis” e em revitalizações que não incluam os moradores locais, mas visem apenas a interesses alheios e externos.

Talvez pareça uma obviedade, mas a cidade se torna nossa quando nos apropriamos efetivamente dela. Na adolescência e na juventude, tive uma vivência de bairro bastante intensa; me sentia parte da comunidade do Bixiga, onde morava e participava de constantes atividades – voluntárias, recreativas, educativas… Como trabalho de conclusão de curso na faculdade, escrevi uma grande reportagem sobre as transformações socioeconômicas, culturais e arquitetônicas pelas quais passava o Bixiga no fim dos anos 1990, na virada do século 20 ao 21, tomando-o como microcosmo da cidade.

Sou paulistana; alterno momentos de grande identificação com a megalópole e outros de profunda náusea e desilusão. Já morei fora e agora estou de volta, reacostumando-me a rotas e rotinas. Obviamente lamento a insegurança que nos assombra, a insuficiência dos meios de transporte coletivos, o descaso popular e governamental que paira sobre tantas áreas urbanas, a sanha imobiliária que põe abaixo edifícios históricos e outras tantas deficiências que nos impedem de usufruir da cidade. Lamento ainda mais por São Paulo assistir com tamanha passividade à degradação física e moral de tantos de seus habitantes e por se mostrar tão inóspita em vários momentos. Ora, a cidade também é seus moradores, e somos igualmente responsáveis pelo ambiente em que vivemos.

Não tenho carro; gosto de circular pela cidade de ônibus (quando não tenho pressa nem há trânsito) e, principalmente, a pé; caminho, caminho muito e descubro bairros, histórias e, principalmente, pessoas. Tropeço em calçadas rachadas, às vezes sou surpreendida por motoristas apressados, identifico portinholas faceiras em meio a blocos duros de concreto. Vejo feiúras e belezas, enquanto celebro a coragem daqueles que desafiam a passividade urbana: os hortelões urbanos, os artistas de rua, os manifestantes conscientes, os bike anjos etc.

>> O teatro toma as ruas

Por isso, comemoro o fato de que diversas companhias teatrais têm criado espetáculos que usam as vias paulistanas como palco e cenário, incorporando transeuntes, fachadas, comércio local e até os veículos que teimam em avançar em meio ao elenco. Propõem, assim, uma dramaturgia que dialoga tanto com a história quanto com as questões atuais da metrópole. Percorrem espaços muitas vezes esquecidos pelo poder público ou trajetos considerados deteriorados e nada poéticos. Realidades e tensões normalmente ocultas se revelam diante de espectadores atentos, e um novo olhar sobre a cidade se estabelece.

É o caso de Barafonda, da Cia. São Jorge de Variedades, que acontecia ao longo de dois quilômetros no bairro da Barra Funda. O cortejo, composto pelos sete atores da companhia e outros 18 convidados – incluindo quatro músicos –, partia da Praça Marechal Deodoro, no cruzamento da Avenida Angélica com a Rua das Palmeiras, seguia por toda a Rua Lopes de Oliveira (onde está a sede do grupo), atravessava o viaduto sobre a linha do trem da CPTM e terminava na Praça Nicolau de Morais Barros. “A obra realizada na rua tem uma dramaturgia aberta a interferências e ao diálogo. Ressignifica a vida prosaica e descortina um outra cidade”, comentou a atriz Patrícia Gifford, responsável pela coordenação geral de Barafonda.

Destaco aqui outros grupos com pesquisas e trabalhos bastante pertinentes que fazem do espaço urbano inspiração e arena para suas criações:

* Cena de "Dentro é Lugar Longe", da Trupe Sinhá Zózima.

TRUPE SINHÁ ZÓZIMA

Até 12 de junho, o grupo apresenta Dentro é Lugar Longe num ônibus que parte do Terminal Parque Dom Pedro e circula pelo centro de São Paulo. A peça propõe uma viagem poética, evocando memórias de infância e lembranças permeadas por alegrias e perdas, encontros e separações. São cinco atores, dirigidos por Anderson Maurício. A trupe, fundada em 2007, montou anteriormente Cordel do Amor Sem Fim (2007), seguida por Valsa nº 6 (2009) e O Poeta e o Cavaleiro (2010), todas tendo o ônibus como palco e a cidade, seu cenário. sinhazozima.com.br

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TEATRO DE NARRADORES

Durante dois meses, a companhia encenou A Resistível Ascensão de Arturo Ui, do alemão Bertold Brecht, num trecho da rua Treze de Maio, entre as ruas Manuel Dutra e Santo Antônio, na Bela Vista, onde mantém sua sede. Doze atores e 20 técnicos contavam a história do êxito do gângster Arturo à frente do cartel da couve-flor, em alusão à ascensão de Adolf Hitler na Alemanha nazista. A peça deu seguimento à pesquisa iniciada com Cidade Coro, Cidade Fim, Cidade Reverso, de 2011, que mesclava depoimentos reais de moradores do Bixiga com uma dramaturgia que punha em xeque as transformações socioeconômicas da cidade a partir dos anos 1970. Antes, o grupo – formado há mais de 15 anos – já havia realizado ocupação artística de edifícios na Penha e no Bom Retiro, sempre em diálogo com o entorno. teatrodenarradores.com.br

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PESSOAL DO FAROESTE

​Também com 15 anos de trajetória, a companhia investiga tanto narrativas do imaginário popular brasileiro quanto temas ligados à história e às dinâmicas da região central de São Paulo – como a peça Cine Camaleão: Boca do Lixo, de 2011, um retrato ao mesmo tempo irônico e glamouroso da Rua do Triunfo (onde o grupo tem sua sede) dos anos 1970 e 80. Na época, o local abrigava importantes produtoras cinematográficas e era reduto da marginalidade paulistana. O novo espetáculo, Homem não Entra, traz um faroeste ambientado na São Paulo dos anos 1950 que tem, seu ápice, numa cena feita na rua à meia-noite. pessoaldofaroeste.com.br

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OPOVOEMPÉ

O grupo surgiu em 2005 com a perspectiva de olhar os fluxos, interações e dinâmicas que compõem a cidade. Daí a realização de pelo menos sete intervenções artísticas em pontos diversos de São Paulo. Com Aqui Dentro, Aqui Fora, de 2008, a companhia experimentou montar o mesmo espetáculo numa sala fechada e nas ruas, na forma de um percurso pela região do Vale do Anhangabaú. Em O Farol, de 2012, o público sai de um hotel cinco estrelas na Marginal Pinheiros e toma um trem, rumo à estação Presidente Altino, na periferia. Durante o trajeto, escuta uma gravação em mp3 que sugere reflexões sobre a relação com o tempo na metrópole. opovoempe.org

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TEATRO DA VERTIGEM

Até abril deste ano, o grupo encenou Bom Retiro 958 metros pelas ruas do bairro homônimo, trazendo à tona as histórias escondidas sob as fachadas – da herança dos imigrantes judeus aos coreanos e bolivianos que movimentam a economia local. O espetáculo resultou de dois anos de pesquisas e envolveu, a cada apresentação, cerca de 40 pessoas, entre atores, técnicos e equipe de produção. Ao usar espaços inusitados em suas montagens, como uma igreja, um hospital ou um presídio, a companhia – que completa 21 anos – propõe percepções novas e instigantes para o ambiente urbano. teatrodavertigem.com.br


* Cena de "Bom Retiro 958 metros", do Teatro da Vertigem.

* Um faroeste realizado em plena Cracolândia revela-se bastante significativo no atual contexto de debates sobre a São Paulo do século 21. (Foto: Rodrigo Reis)

Era uma vez na Cracolândia

Já faz alguns dias que estou para escrever sobre Homem Não Entra, espetáculo mais recente da Cia. Pessoal do Faroeste. Tenho cada vez mais certeza que os méritos dessa peça ultrapassam a performance apresentada na sede da companhia, na Rua do Triunfo, e alcançam um debate fundamental sobre a cidade e seus habitantes que urge ser ampliado e disseminado. Que processos – autoritários ou democráticos – estão em curso hoje em dia? Quais seriam os atuais duelos da São Paulo contemporânea? E os personagens desses “acertos de contas”?

A peça, escrita pelo jornalista Rodrigo Pereira, pesquisador e inveterado fã de faroestes, e por Paulo Faria, também diretor da montagem, se passa em 30 de dezembro de 1953, no dia do polêmico decreto proposto pelo então prefeito Jânio Quadros e promulgado pelo governador Lucas Garcez, que visava acabar com a chamada Zona Livre, área de prostituição no Bom Retiro. As prostitutas expulsas dali migram para a região no entorno da Estação da Luz, que ficaria conhecida por nomes como Quadrilátero do Pecado, Boca do Lixo e, mais recentemente, Cracolândia. A prostituta Brigitte, nascida Brígida, interpretada por Mel Lisboa, desponta como liderança. Por questões pessoais, mata uma cafetina e seu amante, um poderoso fazendeiro. Assume o comando do estabelecimento da mulher assassinada e, em provocação ao xerife Mardock (Roberto Leite), o mantenedor da ordem e da segurança daqueles bairros, não cancela a festa de ano-novo programada para o local. O corrupto e ardiloso Mardock teme que o evento se torne um ponto de encontro da bandidagem. E tem outra preocupação para aquela noite: a chegada do pistoleiro Django (José Roberto Jardim), com quem o xerife tem uma disputa pendente.

Sede de vingança
Um dos grandes trunfos da peça foi justamente a opção pelo faroeste, nada comum no teatro. Apesar dos riscos de encenar um western no palco, a montagem tem muitos acertos. Os principais elementos do gênero estão presentes: o sentimento de vingança, que impulsiona e opõe os personagens; um acerto de contas com o passado, baseado em códigos de honra ou de justiça; duelos ambientados num lugar que gradativamente se torna “civilizado” e o contraste proposital entre os símbolos do progresso (trem, imprensa…) e o ambiente sem lei das cidades nascentes (os saloons, os bordéis, a marginalidade), para citar alguns. Nos faroestes cinematográficos, é bastante comum o uso do grande plano geral, preenchendo a telona com paisagens poeirentas e inóspitas, e do plano americano (que flagra os personagens dos joelhos para cima). Faço essa breve menção para comentar a inteligente escolha por um cenário horizontal comprido, que começa no bar da entrada da sede e segue até a saleta de bilhar. O palco, em três planos, explora enquadramentos diferenciados dos personagens e se torna locação interna ou externa de acordo com a cena. E em nenhum momento esquecemos que estamos mesmo na Rua do Triunfo, na cidade de São Paulo, nessa metrópole repleta de lugares socialmente “interditos”. No ápice do espetáculo, quando finalmente Brigitte, Mardock e Django duelam, temos ali, no Largo General Osório, tendo a Sala São Paulo atrás (antigo prédio da Estrada de Ferro Sorocabana), nosso grande plano geral.

Outro trunfo da peça é a presença do coro, que funciona muito bem. O bando de homens maus é mais que um punhado de coadjuvantes: compõe as cenas e dá fluxo à narrativa. Achei o início da peça magistral, com aquela passagem “a galope” dos atores – que serve de metáfora também aos trens que chegavam às estações ferroviárias das redondezas e traziam tanto a riqueza quanto forasteiros com sede de vingança.

Movimentos precisos
Se há uma diferença crucial, contudo, entre os clássicos do faroeste e a peça, essa está na verborragia da segunda. Os personagens de western costumam ser figuras de poucas palavras e olhares contundentes, que falam o estritamente necessário e não gastam paciência nem energia com discursos extensos. Homem Não Entra, por sua vez, é um espetáculo de muitos diálogos e falas longas. Isso se explica porque o texto, além de comportar parte das ações passadas (os personagens contam por que agem como agem no momento presente), desenha todo o contexto daquela São Paulo em progresso. Ficamos sabendo da 2ª Bienal de Arte da cidade, do sucesso do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz e exibido em Cannes, da ascensão de espaços urbanos ainda novos, como o Parque do Ibirapuera e a Avenida Paulista. Embora a trama se beneficie desse contexto, há diálogos que soam forçados, didáticos demais. Em geral, o personagem do jornalista Romã (Beto Magnani) é o encarregado de introduzir tais assuntos. Aliás, Romã é uma figura interessante na trama; esperto e escorregadio, tenta tirar vantagem de sua relação tanto com Mardock quanto com Brigitte, aproveitando seu ar sedutor e sabichão.

Para dar conta do texto a ser dito, o diretor Paulo Faria optou por cenas mais estáticas, com o mínimo de movimentos e precisão de gestos. Em geral, os atores se saem muito bem, mas quem se destaca é Mel Lisboa, que nos oferece uma Brigitte vigorosa e contundente. Mais que uma prostituta sedutora, porém rancorosa e vingativa, Brigitte é uma mulher bastante consciente de seu papel na sociedade. Não se enxerga como vítima de um trauma sexual ou de um sistema nebuloso; identifica com muita clareza os jogos de poder que a envolvem e não se nega a participar deles. Homem não entra em sua vida – talvez Django, se mostrar que merece –, homem não entra em seus negócios. O protagonismo de Brigitte, muito mais que o de Django, me parece outro acerto da peça. Por outro lado, a outra personagem feminina, Ramirez, esposa de Mardock, não me convence. Embora a atriz Thaís Aguiar lhe empreste graça e humor, a pobre Ramirez me parece dispensável, um tanto clichê. Faltou mencionar o divertido Hadur, interpretado por Marcelo Szykmann, responsável pelas melhores tiradas da peça. As passagens coreografadas, em que há duelos e tiroteios, e a trilha de Felipe Roseno com sonoplastia de Jorge Peña (fiel à atmosfera de faroeste) merecem aplausos.

* As motivações da prostituta Brigitte vão além de um mero acerto de contas com seu passado. Crédito: Rodrigo Reis.

O lado sombrio da cidade
Com 15 anos de trajetória e sede na Rua do Triunfo, a Cia. Pessoal do Faroeste parte de um fato histórico para montar um “faroeste trágico”, que nos faz pensar muito mais sobre a São Paulo do século 21 do que necessariamente sobre a “cidade em processo civilizatório” da década de 1950. Ainda mantemos essa expectativa de que a “ordem” e a “segurança” venham nos salvar do ambiente sem lei que impera na megalópole. Uma certa iniciativa de “limpeza social”, apoiada nas estatísticas sobre a violência, tem estado em curso já há bastante tempo. Certos grupos, embora “indesejáveis” a uns quantos olhos, continuam ocupando calçadas, esquinas, imóveis abandonados. Andamos todos blindados, escondidos atrás de grades e muros. Não nego que realmente enfrentamos um problema concreto de criminalidade, mas questiono a manipulação de nossa sensação de insegurança com vistas a determinados fins (nada nobres). Além disso, o espaço urbano coletivo tem sido cada vez mais desapropriado em nome de interesses privados – projetos de revitalização que têm na verticalização sua bandeira visam beneficiar a quem, exatamente?

Fragmentar a cidade em “ambientes saudáveis e familiares” versus “redutos de marginalidade” é a solução? Tampouco consigo entender o descaso governamental que paira sobre áreas históricas ou tradicionais de São Paulo, totalmente abandonadas, condenadas à decadência e à degradação completas até, subitamente, se transformarem em zonas de interesse “social” e especulação imobiliária. Por isso, o clamor de Brigitte – em determinado momento do espetáculo – ecoa de modo dolorido e agudo não só pelas fachadas descascadas e sujas da Cracolândia e da região da Luz, mas por toda a cidade. Acorda os cidadãos sonâmbulos, sacudindo-lhes a indiferença. Dá voz a quem já desaprendeu a fala, o protesto, o pedido de socorro. E chama a atenção para nossa responsabilidade diante do outro e da coletividade.

Responsabilidade diante do outro
Me recordo de uma conferência da filósofa estadunidense Judith Butler, Vida Precária e as Condições de Coabitação, em que ela falava justamente sobre o compromisso ético de preservar não só a própria vida (no sentido mais amplo do termo “preservar) mas também a vida do outro, com a consciência de que a convivência com os demais habitantes do planeta não é uma escolha. Vivemos em inevitável relação de interdependência; e essa proximidade obrigatória com o outro (mesmo indesejável) expõe a precariedade de nossa condição social. Butler toma como exemplo o conflito Israel e Palestina, traça paralelos e aponta contradições entre o pensamento de dois filósofos judeus, o lituano Emmanuel Levinas (1906-1995) e a alemã Hannah Arendt (1906-1975), e conclui: “Se tentamos entender em termos concretos o que significa nos comprometermos em preservar a existência do outro, seremos invariavelmente confrontados com as condições físicas da vida; um compromisso, então, não só com a persistência corporal do outro, mas com todos os fatores ambientais que tornam sua vida suportável”.

Poderia ser uma tragédia grega. Ou uma obra de Bertold Brecht. Neste nosso caso, é um faroeste – com todas suas instigantes questões sobre progresso e civilização, barbárie e justiça (ainda que sejam códigos privados de justiça). O fato é que a peça traz à tona questões escamoteadas sobre o espaço urbano – muito pertinentes para se discutir o conceito de “desenvolvimento” em voga. Por isso, não me parece nada irrelevante que tenhamos um faroeste em plena Cracolândia. Obrigada, Paulo Faria, Rodrigo Pereira & elenco.

 

HOMEM NÃO ENTRA. Até 18/8, sáb. 23h e dom. 17h. Sede Luz do Faroeste: Rua do Triunfo, 305, Metrô Luz, tel. 3362-8883. Gênero: Faroeste. Duração: 60 min. Classificação: 18 anos. Ingressos: pague quanto puder (antecipados ou reserva: R$ 40).

* Brigitte (Mel Lisboa), apoiada por Hadur (Marcelo Szykmann), à esq., e Django (José Roberto Jardim), confronta Mardock (Roberto Leite). Ramirez (Thaís Aguiar) observa a cena, ao fundo. Crédito: Rodrigo Reis.

Borboletas no sertão

Beto Magnani, Juliana Fagundes e, no alto, Thais Aguiar: sertanejos em época e lugar imprecisos. (Foto: Lenise Pinheiro)

A época é indefinida e a geografia, imprecisa; sabemos apenas que o lugarejo onde se encontra a pensão de Cora (Juliana Fagundes) e sua filha Belbelita (Thais Aguiar) será inundado pelas águas de uma represa. Os demais moradores já partiram, mas as duas mulheres permanecem ali, à espera do retorno incerto de José, filho de Cora, vendido a estranhos quando tinha 8 anos. Nesses anos todos, Belbelita cultiva um jardim na esperança de que as flores atraiam borboletas azuis para sua coleção. A rotina delas muda com a chegada de Rafael (Beto Magnani), um viajante interessado em comprar as terras próximas à futura hidrelétrica. Intimista, poética e, ao mesmo tempo, melodramática, Borboleta azul aborda o universo mítico do Brasil sertanejo. Trata-se da nova montagem da Cia. Pessoal do Faroeste, que antes, em Cine Camaleão – A boca do lixo, havia retratado a efervescência cinematográfica dos anos 1970 na Rua do Triunfo, onde hoje a sede do grupo convive pacificamente com o degradado entorno da Cracolândia. O diretor Paulo Farias optou pela simplicidade – da sonoplastia sem artifícios à iluminação com velas e lampiões – para ressaltar a sensação de angústia e expectativa que cerca as duas mulheres. 

BORBOLETA AZUL. De 14/6 a 1º/9, qui. e sex. 19h; sáb. 21h30. Sede Luz do Faroeste: R. do Triunfo, 301, República, t Luz, tel. 3362-8883. Gênero: drama. Duração: 60 min. Classificação: 16 anos. Ingressos: o espectador define quanto quer pagar (reservas por telefone custam R$ 30).