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Os atores Maria Carolina Dressler e Jonatã Puente em cena de "Estrada do Sul": o congestionamento inexplicável não vai terminar tão cedo. (Foto: Adriana Balsanelli)

Desliguem os motores: conviver é preciso

Na leitura de A Autoestrada do Sul, conto do argentino Julio Cortazar (1914-1984) presente no livro Todos os Fogos o Fogo (1969), chama a atenção a epígrafe do jornalista italiano Arribo Benedetti, tirada de um artigo no jornal L’Espresso de 21/6/1964: Gli automobilisti accaldati sembrano non avere storia… Come realtà, un ingorgo automobilistico impressiona ma non ci dice gran che. Arrisco uma tradução: “Os automobilistas acalorados parecem não ter história… Como realidade um congestionamento automobilístico impressiona, mas não nos diz muita coisa”.

Cortázar se inspirou nessas linhas para criar uma narrativa sensacional: na rota a Paris pela autoestrada do sul, numa tarde quente de domingo, um engarrafamento espantoso começou a se formar. A princípio, os motoristas acreditavam que ficariam umas poucas horas ali. Mas se passavam dias e mais dias, sob um sol causticante ou um frio intenso, e os carros mal se moviam. Permaneciam praticamente lado a lado. A convivência forçada fez com que criassem núcleos para organizar o abastecimento de comida e água; parcerias surgiram entre eles e rotinas foram estabelecidas. Até que as filas de carros voltaram a andar. Quando o congestionamento se dissolveu, uma suave melancolia se abateu sobre o engenheiro do Peugeot 404, personagem que serve de eixo para Cortázar: “não era possível que isso tivesse acabado para sempre”. Os automóveis voltaram a correr e seus motoristas, a olhar para frente – exclusivamente para frente. Continue lendo